Curtas & Boas 27/02

Publicado em Curtas & Boas

Salvador

O Carnaval de Salvador já é reconhecidamente a maior festa de rua do mundo. Mas seria possível expandir ainda mais a festa? Para Clínio Bastos, presidente da Associação Baiana de Camarotes (ABC), isso só poderia acontecer caso se criasse um quarto circuito – alternativo ao Dodô (Barra-Ondina), Osmar (Campo Grande) e Batatinha (Pelourinho). “Quando nós fomos pra Barra, foi assim. Havia uma necessidade, em função do próprio crescimento demográfico da cidade, da criação de um novo circuito. E hoje esse circuito tem uma força muito grande. [...] Dentro do espaço Barra-Ondina, eu não consigo visualizar mais espaços físicos. Eu não acredito que o Carnaval da Bahia cresça mais fisicamente, pelo menos nesse momento. A não ser que haja um quarto circuito, alternativo, segmentado. Aí eu posso acreditar”, explicou. Em entrevista ao Bahia Notícias, Clínio explica o impacto da crise no mercado do entretenimento, fala sobre o aumento de atrações dentro dos camarotes e ainda entra em algumas polêmicas. Entre elas, a ocupação de espaços físicos pelas estruturas particulares. “Quando se diz que os camarotes estão em área pública não é verdade. Isso é uma minoria, bem pequena”, garante.

Fala-se muito da crise do axé, na crise do Carnaval... A crise afeta os camarotes de Salvador?
A crise econômica que nós estamos vivendo é uma crise do Brasil inteiro. Obviamente, quando você está em um processo de reaquecimento, isso se reflete em todos os segmentos. Não seria diferente com o Carnaval. Então é claro que tem reflexos no entretenimento. No momento em que você está no país com problemas na economia, que tem uma retração dos investimentos das empresas e uma taxa de desemprego muito elevada, tem fatores que vão interferir em Salvador, no Rio, em Recife e em todos os lugares que dependem de uma economia forte.

Neste ano, qual foi o impacto nos camarotes?
Existem duas situações. Nós vivemos uma situação preocupante entre outubro e dezembro, que foi o auge da crise econômica e política do país, que gerou uma incerteza muito grande e, consequentemente, houve uma retração muito forte das vendas, principalmente de blocos, camarotes e festas. Isso é natural. Com a chegada do ano novo, que também é natural, sempre se celebra e se injeta mais ânimo e motivação. A gente começou a ver uma mudança no clima e já uma procura dos nossos produtos. Aí começamos a ver sinais extremamente positivos, que são os ensaios, que estão todos cheios e com sucesso. É impossível você imaginar em qualquer lugar do Brasil e do mundo uma segunda-feira igual à que o Harmonia do Samba está fazendo, com mais de 30 mil pessoas. Não foi diferente com Léo Santana na sexta, com Carlinhos Brown no Sarau, com a Timbalada do Museu du Ritmo. Nossos eventos aqueceram. Nós temos um povo que gosta da festa e gosta da rua também. Então a sensação que a gente tem é de que passamos pelo pior momento e essa situação se inverteu e nós já acreditamos que teremos um Carnaval, se não igual ao do ano passado, até melhor em relação a determinados produtos.

A quantidade de camarotes neste ano foi maior, menor ou igual à do ano passado?
Eu diria que entre os grandes camarotes houve a diminuição de um, por causa da junção de dois deles [Cerveja e Cia e Camarote do Reino]. Mas eu diria que o número se manteve praticamente estacionado, igual ao dos anos anteriores.

Há um movimento, que começou alguns anos atrás, do fim dos blocos e de mais atrações sem cordas. Isso afetará os camarotes de alguma forma?
Eu acho que um não existe sem o outro. O camarote, como o nome diz, é para assistir ao espetáculo. E acho que o maior espetáculo da gente sempre foi e sempre será a rua. Esse é o diferencial do Carnaval da Bahia. Mesmo sendo um empresário do camarote, não tenho dúvida que a nossa festa, nossa história, na nossa essência veio da rua. É lá que vai acontecer tudo. Então é claro que se a rua não estiver fortalecida, nós também não estaremos. Acho que deve haver sempre um equilíbrio, até porque existem dois públicos: um que gosta de assistir e um que gosta de participar. Penso que essa movimentação de blocos que infelizmente não podem sair depende muito da conjuntura também. Se há uma retração de patrocínio, o bloco sofre. Se há uma retração da economia, o bloco sofre. O entretenimento é sensível. Mas enquanto a gente tem marcas fortes que não puderam sair este ano, tiveram outras marcas tão fortes quanto e que estão esgotados. Eu sou capaz de enumerar seis ou sete produtos que esgotaram as vendas de abadá. Então é uma acomodação do mercado em função da conjuntura, mas acredito que criamos um modelo de 30 anos, de sucesso, em que nós temos muito mais a celebrar do que a lamentar. E talvez, neste modelo, possam surgir novas ideias e novas propostas comerciais que possam fazer os próximos 30 anos do nosso Carnaval. E acho que os dois [camarotes e trios] vão conviver, porque são dois produtos que se complementam.

Antes, as atrações dentro dos camarotes eram um diferencial. Nos últimos anos, isso foi aumentando até que hoje praticamente todos têm shows dentro dos espaços. Você acha que isso é uma tendência para os próximos anos ou é só uma fase?
O Carnaval da Bahia sempre mudou muito. Antes você tinha os clubes. Os artistas cantavam dentro dos clubes e não cantavam na rua. Em determinado momento os blocos possibilitaram isso, porque eram os empresários que levavam os artistas para a rua por meio da iniciativa privada. Isso gerou emprego, arte e música na rua. Agora houve um movimento praticamente inverso, em que alguns artistas migram para dentro dos camarotes, mas também estão na rua. Eu acho que isso é uma mudança de mercado. Cabe ao empresariado e ao poder público entender esses sinais e projetar o futuro. Qual é o nosso futuro? No meu entendimento o nosso futuro está na rua. E ao mesmo tempo em que alguns blocos não estão saindo, os artistas de grande nome estão saindo na rua com trios independentes. Ou seja, fortalecendo a rua. Eu acho que esse modelo vai evoluir para uma nova forma de negócios, com uma nova acomodação, e sobreviverão os produtos que efetivamente tenham uma capacidade de ser realizados dentro desse novo cenário e das condições propícias para que o empresariado possa investir.

Em 2015, o empresário Joaquim Nery, da Central do Carnaval, disse que os camarotes não têm mais para onde crescer, porque já ocuparam todos os espaços possíveis. Você acredita que isso é verdade?
Totalmente. Nos circuitos você não tem mais espaço nenhum em que você possa acomodar um camarote de uma forma competitiva. O que eu quero dizer? Hoje você tem grandes camarotes com grandes estruturas. Entrar com um espaço em que você não possa ofertar o mesmo conforto, segurança e serviços não vai ser competitivo, certamente não terá sucesso. Penso que a declaração dele seja nesse sentido. Todos os espaços possíveis para se ter grandes estruturas já estão ocupados e estão muito bem.

Antes, o circuito Dodô (Barra-Ondina) só ia até o Hotel Othon. Isso mudou quando o camarote Salvador surgiu depois do Ondina Apart. Você acha que é possível que os circuitos fiquem ainda maiores?
A partir desse momento, nós já estaremos pensando no futuro. Quando nós fomos pra Barra, foi assim. Havia uma necessidade, em função do próprio crescimento demográfico da cidade, da criação de um novo circuito. E hoje esse circuito tem uma força muito grande. Naquela época, se eu não me engano era 1996, Daniela Mercury desce e cria oficialmente o circuito da Barra, e enquanto você desfilava o carro passava. Eu acredito que tem como ocorrer (o crescimento do Carnaval). Agora se vai ser o surgimento de um novo espaço, de um novo modelo de negócio, isso quem vai dizer é a população, que vai manifestar sua preferência. Dentro do espaço Barra-Ondina, eu não consigo visualizar mais espaços físicos. Eu não acredito que o Carnaval da Bahia cresça mais fisicamente, pelo menos nesse momento. A não ser que haja um quarto circuito, alternativo, segmentado. Aí eu posso acreditar. Eu acho que agora a gente tem que buscar qualificar a festa da gente. Isso é muito mais importante do que quantificar ela.

E como qualificar?
Esse é um desafio que não é fácil e depende de um somatório de esforços tanto da iniciativa privada quanto do poder público, que é peça fundamental nessa engrenagem. Hoje, na abertura do Carnaval do interior, a Polícia Militar está lá para possibilitar que a festa aconteça com segurança. Eles [policiais] são os verdadeiros guardiões do nosso Carnaval. A gente tem uma festa maravilhosa, temos sim que celebrar, agora temos que pensar no futuro. Mas penso que nós temos empresários e um setor público que tem uma capacidade muito grande de, juntos, entenderem essas mudanças e buscarem novos caminhos.


No pós-Carnaval sempre surge aquela discussão sobre a situação dos espaços públicos ocupados pelos camarotes. Como a ABC acompanha isso?
Nós temos pouquíssimos camarotes em áreas públicas. A gente precisa desmistificar isso. Quando se diz que os camarotes estão em área pública não é verdade. Isso é uma minoria, bem pequena. Diria que em área pública a gente tenha três camarotes, não sei nem se chega a isso. Temos o camarote Salvador, que está em uma praça. Mas vale ressaltar que ela foi devidamente licitada e o que é pago por aquela praça é um valor superior, provavelmente, a qualquer espaço público do Brasil. A produtora tem um cuidado muito grande para, ao terminar a festa, devolver aquele espaço todo requalificado para a comunidade. É feito o registro disso. Eu gostaria muito, como cidadão, que houvesse outras praças de Salvador em que fossem feitas ações como esta. Eles devolvem de uma forma muito superior ao que eles encontraram.

BN