Deus não deve nada a ninguém

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Hoje, pela manhã, eu estava fazendo uma caminhada na nova orla de Juazeiro, na Bahia, e, contemplando a maravilha do Rio São Francisco, refleti sobre a gratidão. Pensei em quanto sou ingrato com a vida e foi o meu principal motivo de introspecção naquela brisa suave.

Foi diante do Velho Chico que refleti sobre como o reconhecimento das dádivas que recebemos a cada segundo das nossas vidas não é uma virtude de todo mundo. Talvez seja pela dificuldade de enxergarmos plenamente tudo que acontece conosco e ao nosso redor.

Antes de chegar aos outros, digo logo por mim: quando não sou sensível para perceber os carinhos que recebo, torno-me um ser ingrato. 

Já parou para pensar se tivéssemos que pagar pelo ar que respiramos? Pelas reações químicas do nosso corpo ou mesmo pelo funcionamento das células de cada tecido, queridas amigas e queridos amigos?

São tantas coisas que acontecem no invisível, mas que muitos de nós ignoramos e não agradecemos por isso. Existe um turbilhão de acontecimentos do fio de cabelo à planta dos pés.

O nosso organismo está sincronizado com todos os sistemas e conectado com milhares de neurônios; entretanto, estamos numa dormência de entendimento.

Nessa falta de reconhecimento do bem que nos fazem, somos capazes de ignorar tudo e todos que convivem conosco. Ficamos indiferentes, egoístas, manipuladores, vitimizados, cheios do veneno da inveja matadora.

– Uma excelente manhã para você, meu amigo Sabino! Como vai o povo de Maniçoba? Tudo bonito por lá? E o seu lote está produzindo o quê?

– Muito agradecido, meu grande amigo. Rapaz, o negócio está bom demais, viu? Este ano eu saio da lama. Tenho uma grande área com mangas das variedades Espada, Ubá, Coquinho, Rosa, Tommy, Palmer, Kent, Keitt e Haden. Com exportação certa para os Estados Unidos.

– Vixe, compadre Antônio, pra que tanta manga assim, oxente? Não bastava cultivar apenas uma variedade, meu compadre? Tudo tem limites, e agora você extrapolou a nossa amizade.

– Calma, calma, meu querido. O que está acontecendo? Será que é o que eu estou pensando sobre você, meu compadre? Está com inveja de mim?

– Quem, eu? Jamais terei inveja de você, porque já tenho tudo o que desejo! Sou uma pessoa que não tenho inveja de ninguém.

– Não precisa nem falar, meu compadre. Eu sei que você é um homem puro e sem maldades.

– Sabe, meu compadre, eu acabei de comprar um carro quase novo. É uma verdadeira máquina. Aqui em Juazeiro-Ba não tem um igual ao meu. Eu sou o cara mesmo! E você, compadre, comprou algum?

– Comprei três carros zero na semana passada. Um para minha filha, outro para minha esposa e outro para mim.

– Misericórdia, meu compadre! Com tanto extravasamento! Não vejo graça nessa de ficar gastando assim à toa. Além do mais, você é um tolo chifrudo.

– Assim não podemos conversar, compadre, como duas pessoas civilizadas. Até mais!

Esse simples diálogo mostra um pequeno recorte de um personagem ingrato e invejoso interagindo com seu invejado. Bom mesmo é ter gratidão!

Ser grato não é simplesmente apresentar um momento de cortesia com alguém, mas sim o envolvimento pleno de sentimentos nobres que cada pessoa carrega.

Agradecemos pela vida, pela família, pela saúde, pelas amizades, pelos conhecimentos, pelas oportunidades, pela natureza, pelo apoio, pela esperança e pelo amor de Deus.

O desafio aqui é refletirmos sobre três questões: O que é gratidão? Para que serve a gratidão? E como ela funciona?

Para respondermos a essas perguntas é necessário conhecermos a etimologia da palavra. Gratidão, segundo o dicionário Priberam da Língua Portuguesa, é o reconhecimento por um benefício recebido.

Foi nesse pensamento que o nosso querido Machado de Assis, em Contos Avulsos, mostrou a maestria desse sentimento, registrando que “a gratidão de quem recebe um benefício é sempre menor que o prazer daquele de quem o faz”.

Essa frase nos arrebata para questões fundamentais da nossa existência: Por que fazemos o bem? E, indo mais além: será que sempre fazemos pensando em receber algo em troca?

É por isso que, no Livro dos Atos dos Apóstolos (20:35), a expressão é certeira e objetiva: “Mais bem-aventurada coisa é dar do que receber”. Cresci escutando dos meus avós que, quando ajudamos o necessitado, Deus está nos abençoando para que abençoemos.

– Olá, tudo bem, meu querido amigo Dantas! Como vai o nosso querido amigo Toinhão do Amor? E o senhor ainda faz exercícios no Parque Municipal Lagoa de Calú? E aí, seu Dantas, tem piquenique de que sabor? Têm de coco? 

– Estou bem, obrigado! O Toinhão está bem, graças a Deus. Eu, todos os dias, saio cedo para me exercitar. Às quatro horas da manhã já estou de pé, agradecendo pela oportunidade de acordar mais um dia.

– Muito bem, meu querido amigo Dantas! Suas palavras inspiradoras nos convidam a sermos mais gratos a Deus por tudo. É preciso ser grato tanto na abundância quanto na escassez.

– Verdade. Tenho que ir agora, meu ônibus está chegando, tchau.     

Esse pequeno diálogo me fez recordar do que escreveu o filósofo Meishu Sama: “Gratidão gera gratidão, e lamúria gera lamúria.” Uma coisa é certa: quem agradece é mais feliz na jornada da vida, porque é honroso poder servir a humanidade, disseminando gotinhas de amor nos corações que recebem os benefícios.

Depois disso, vale a pena lembrar o que Maquiavel escreveu: “Os homens demonstram mais gratidão quando recebem o bem daquele de quem acreditavam que iriam receber o mal.”

Por essa razão, a gratidão que você tem hoje será o tesouro do seu futuro. Mesmo que as pessoas sejam ingratas com você, nunca deixe de ser grato por todos os benefícios recebidos. O importante é saber: Deus não deve nada a ninguém!

Professor Josiel Bezerra