Vorcaro discutiu registrar bens no nome da ex-namorada em negociação de casa de R$ 490 milhões

nacional

Daniel Vorcaro, do Banco Master, sugeriu à então namorada que bens do casal fossem transferidos para o nome dela, enquanto negociava a compra de uma casa de alto padrão em Miami, nos Estados Unidos. O ex-banqueiro e Martha Graeff discutiram o assunto em mensagens trocadas entre dezembro de 2024 e julho de 2025, quando o banco já enfrentava dificuldades.

Vorcaro negociou com a namorada a abertura de um “trust” —estrutura de planejamento patrimonial que seria registrada em nome da influenciadora. Em setembro de 2024, segundo mensagens obtidas pela CPI do INSS, Vorcaro fechou a compra de uma casa na Sabal Palm Road por mais de US$ 85 milhões (R$ 490 milhões em valores da época). A propriedade tem 6.790 m² e vista para o mar.

Documentos da investigação conduzida pelo liquidante do Master apontam que a aquisição foi concluída em janeiro do ano seguinte, por US$ 85,2 milhões. Em fevereiro, também foi comprado um imóvel ao lado, com 1.900 m², por US$ 6,9 milhões (R$ 40 milhões).

Ambas as propriedades estão registradas em nome da empresa Goldbeach Properties, segundo os registros do liquidante. A firma tem como representantes vários executivos da Kodiak, uma empresa especializada na administração de trusts, e parte desses profissionais é citada nas conversas entre Vorcaro e Graeff.

Procurada desde a noite de terça-feira (17) por email, telefone e WhatsApp, a defesa da influenciadora não se pronunciou. Ao jornal O Estado de S. Paulo, afirmou que ela “não possui imóveis, automóveis ou depósitos de valores decorrentes do relacionamento com Daniel Vorcaro”. “Também não tem conhecimento sobre a existência de algum trust que lhe envolva, seja nos Estados Unidos ou em qualquer outro país”, disse.

A assessoria do Banco Master disse que não vai se pronunciar.

Mensagens mostram que o ex-banqueiro buscava propriedades na região desde fevereiro de 2024, em áreas como Indian Creek, Sunset Islands, North Bay Road e Star Island, com a ajuda de Martha na escolha. Ele diz ter visitado ao menos 12 vezes uma casa que pertencia ao ex-jogador de futebol americano Tom Brady, ex-marido da modelo Gisele Bündchen.

Em setembro daquele ano, uma contraproposta de US$ 86,5 milhões pela compra de um imóvel animou o casal. Em mensagens, eles comparam a residência a uma que teria sido arrematada por David e Victoria Beckham, classificada como “horrível” pela influenciadora.

“Estamos comprando muito bem”, disse Vorcaro à namorada. “Nossa casa depois de arrumada vai valer o dobro do preço”, completou.

Em dezembro, Martha questiona Vorcaro sobre o fato de “Lori e Leo” estarem pedindo seu passaporte brasileiro. Ele responde que o documento seria necessário para “abrir o trust”. Nos documentos, uma das representantes da compradora Goldbeach é identificada como Lori Webb, mesmo nome citado nas mensagens.

Em algumas mensagens, Martha demonstra preocupação com a criação do trust. Em julho de 2025, ela pergunta ao ChatGPT o que significa ser beneficiária de uma estrutura assim. “Você (Martha Gonçalves Graeff) tem direito a 100% do patrimônio do trust”, explicou a inteligência artificial, segundo as mensagens.

A IA faz ainda um resumo: “Atualmente, você é a beneficiária de 100% da casa por meio do trust; ele [Vorcaro] provavelmente pode mudar isso a qualquer momento se for um trust revogável —o que é o mais provável”.

Nesse momento, a namorada liga para o dono do Master e aparentemente os dois discutem. “Pra que vou colocar casa no seu nome pra depois tirar? Só não colocar”, afirma o dono do Master. Martha responde: “Eu nunca tive nada no meu nome. Ainda estou trabalhando pra comprar uma casa. Eu preciso entender e me sentir à vontade de perguntar. Isso é muito. Essa casa com meu nome assim”.

Vorcaro então pede que ela esqueça o assunto.

Segundo o advogado Ravi Paciornik, especializado em planejamento sucessório, o trust é uma estrutura composta por três partes: o detentor do patrimônio (settlor), o administrador (trustee) e o beneficiário, que no caso específico seria Martha. “Você consegue ter uma gestão patrimonial muito forte, com diretrizes personalizadas”, afirma.

“O bem não entraria numa liquidação. Ele foi colocado para fora da Justiça brasileira, teria que fazer toda uma medida de anulação da estrutura para trazer esse bem de volta. Como não está no Brasil, fica muito mais complexo”, explica Paciornik.

O modelo pode ser revogável ou irrevogável. No caso de estruturas irrevogáveis, o bem deixa de pertencer plenamente ao detentor do patrimônio, inclusive em caso de dívidas, a não ser que seja provada alguma fraude —algo que, segundo especialistas, é muito difícil de fazer.

Já o advogado Paulo Picelli, especialista em direito imobiliário e sucessório, afirma que o administrador (trustee) é quem aparece formalmente como proprietário dos bens, o que pode dificultar a identificação do real detentor.

“Aqui no Brasil, vai aparecer que a empresa de fora é detentora dos bens. É colocar mais uma camada que dificulta a visibilidade. E não temos uma lei que regula o trust, somente os impactos tributários dele, então é muito difícil comprovar que foi tudo simulado”, diz.

Também em dezembro de 2024, em meio às negociações pela casa, Vorcaro conta ter recebido uma oferta de US$ 100 milhões (R$ 600 milhões na época) de um homem do Oriente Médio para comprar um barco do ex-banqueiro em construção na Alemanha. “Valor da nossa casa com a reforma e móveis”, disse ele a Martha.

A namorada brincou que Vorcaro deveria aceitar a proposta, mas ele nega e se refere à embarcação com o nome da amada. “O Martha tá legal demais. O cara mesmo da fábrica falou: Estamos construindo o barco mais incrível dos últimos dez anos”, diz.

Por Felipe Machado Maia e Gabriela Cecchin / Folha de São Paulo/Foto: Reprodução/Redes Sociais