
No silêncio da noite, no conforto da cama, no momento em que quase estou pegando no sono, escuto um estalo seco vindo da cozinha.
— Deve ser a geladeira.
Logo depois, outro estalo, dessa vez surge do nada, na direção da sala.
— Provavelmente seja a televisão (desligada) …
Se o sono não chega, ouço estalos vindo de todos os cômodos da casa, inclusive do próprio quarto onde estou deitado.
— Provavelmente seja o computador.
É claro que não vou verificar de onde estão vindo os estalos e barulhos estranhos. Primeiro, porque provavelmente seja mesmo os eletrodomésticos (devido a dilatação e contração térmica), e eu não vou sair do conforto quentinho da minha cama. Segundo, porque tenho medo.
Os eletrodomésticos e móveis devem estalar durante o dia também, mas não ouço devido aos outros barulhos diurnos, porém, quando tudo fica silencioso e calmo sob o manto escuro das estrelas, começo a ouvir a batucada dos objetos inanimados dentro de minha casa.
Lembro-me da história que minha mãe contava de que certa vez, quando ela era jovem, se mudou com a família para um casarão velho, que ficava na saída da cidade e tinha fama de ser assombrado. Em certas noites, o pessoal ouvia barulhos estranhos, parecendo arrastar de pernas e estalos vindo de um dos quartos vazios. Todos encobriam a cabeça com o cobertor e esperavam o barulho passar. Ninguém tinha coragem de ver o fantasma. Numa noite, porém, o barulho não parava e minha mãe criou coragem, chegou até a porta do quarto vazio, onde a assombração vivia e abriu a porta com tudo…. Encontrou um enorme besouro se arrastando pelo chão procurando alimento. Havia outros besouros que entravam por uma fresta na janela e pernoitavam naquele quarto. Mas não havia fantasmas.
Dessa forma, acredito que os barulhos em minha casa, na calada da noite também tenham dessas explicações lógicas.
Acredito que, em certo horário na madrugada, os eletrodomésticos e móveis da casa se reúnam na cozinha para uma festa, ou um happy hour, se preferirem. A televisão, inclusive anda de paquera com o micro-ondas e os estalos são advindos de seus beijos estalados, já o cesto de lixo da cozinha adora contar piada suja e a mesa se requebra toda de rir. A bagunça rola até o amanhecer, ou até eu acordar sonolento, quando todos os eletrodoméstico e móveis correm para seus respectivos lugares e ficam imóveis novamente, como se nada houvesse acontecido…
Ou, essa seja uma das explicações mais prováveis (ou não) por esses objetos estalarem tanto à noite, ou eu estou assistindo muito a Toy Story.
RODRIGO ALVES DE CARVALHO nasceu em Jacutinga (MG). Jornalista, escritor e poeta, possui diversos prêmios em vários estados e participação em importantes coletâneas de poesia, contos e crônicas promovidas por editoras e órgãos literários. Atualmente colabora com suas crônicas em conceituados jornais brasileiros e Blogs dedicados à literatura.
Em 2018, lançou seu primeiro livro intitulado “Contos Colhidos”, pela editora Clube de Autores. Trata-se de uma coletânea com contos e crônicas ficcionais, repleto de realismo fantástico e humor. Também pela editora Clube de Autores, em 2024, publicou o segundo livro: “Jacutinga em versos e lembranças” – coletânea de poemas que remetem à infância e juventude em Jacutinga, sua cidade natal, localizada no sul de Minas Gerais. Em 2025, publicou o terceiro livro “A saga de Picolândia” – série de relatos sociopolíticos acontecidos em Picolândia – uma pequena cidade do interior, cuja sua principal fonte de renda é a produção de sorvetes. Com um tom humorístico e irônico, com uma pitada de realismo fantástico, a obra reúne diversas crônicas engraçadas narradas por um morador desta cidade.

