
Pernambuco assiste, mais uma vez, à reedição de um roteiro conhecido: o ex-prefeito de Petrolina, Miguel Coelho (UB), se apresenta novamente como pré-candidato a uma eleição majoritária em 2026. A pergunta que se ouve nos bastidores diz respeito a exatamente o que representa esta nova “candidatura” depois de uma trajetória que parece ter sido desenhada para representar a si mesmo.
Miguel começou no PSB, partido pelo qual foi eleito deputado estadual e, depois, prefeito de Petrolina. Migrou para o MDB para disputar a reeleição. Em seguida, trocou o MDB pelo DEM, legenda que mais tarde se fundiu ao PSL, dando origem ao União Brasil, na aritmética eleitoral que apontava para a formação do “superpartido” da vez.
Quatro siglas em pouco mais de uma década não configuram uma trajetória política. Revelam, antes, uma permanente geolocalização do poder. Miguel disputou o Governo de Pernambuco e terminou em último lugar entre os cinco candidatos competitivos, embora não humilhante pela diferença de votos.
Foi um resultado que expôs o limite real do capital eleitoral da família Coelho fora do Sertão do São Francisco, depois de décadas de domínio político na região. A reação à derrota talvez seja o capítulo mais revelador dessa trajetória.
Miguel apoiou Raquel no segundo turno, perdeu espaço no novo governo e migrou para a órbita do PSB e de João Campos, emplacando o irmão, Antônio Coelho, na Secretaria de Turismo do Recife, além de um aliado na Secretaria de Desenvolvimento Econômico da capital.
Na Assembleia Legislativa, enquanto esteve lá, Antônio endureceu o discurso contra a governadora, enquanto o prefeito de Petrolina, Simão Durando, eleito com o apoio dos Coelhos, passou a fazer duras e frequentes críticas à gestão estadual.
Depois, Miguel rompeu com João Campos. O aliado deixou o cargo e a aliança chegou ao fim. Recentemente, voltou ao entorno da governadora. Desta vez, indicou um aliado para a Secretaria de Desenvolvimento Econômico e passou a influenciar nomeações em órgãos como o Lafepe e o Porto do Recife.
Em menos de quatro anos, Miguel fez mudanças ao sabor do tempo e das suas conveniências, sempre deixando uma aliança e surgindo na seguinte com espaços na máquina pública. Quem chama isso de construção de consenso está sendo generoso. Quem chama de oportunismo pode estar sendo agressivo.
Miguel não inventou esse estilo. Aprendeu com o pai Fernando Bezerra Coelho, que passou por PDS, PFL, PMDB, PSB e retornou ao MDB. Foram seis siglas ao longo da carreira. Foi ministro de Dilma Rousseff e, anos depois, votou a favor do impeachment que a retirou do cargo. Tornou-se líder do governo no Senado sob Michel Temer e permaneceu na mesma função durante o governo Jair Bolsonaro: dois projetos políticos distintos, a mesma posição ocupada pelo mesmo sobrenome.
Confiança não se constrói em vídeos nem se proclama em entrevistas. O problema é que a confiança que parece faltar talvez não seja a do eleitor, mas a do próprio campo político em que Miguel tenta se movimentar.
Nacionalmente, conta com o apoio do presidente do União Brasil para sustentar sua pretensão. Em Pernambuco, porém, sofreu uma derrota expressiva na Federação União Progressista, que homologou o nome de Eduardo da Fonte para a disputa ao Senado.
Candidatura sem solo é isso: ter padrinho em Brasília e pouco chão em Pernambuco. Miguel não chega a 2026 como um nome consolidado em busca de uma nova eleição. Chega tentando encontrar um espaço político que ainda não conseguiu firmar.
Falta-lhe aquilo que mais se espera de quem pretende representar Pernambuco no Senado: solidez. O que sobra é insistência.
Por Magno Martins/Foto: Divulgação

