
Presidente nacional do partido, deputado federal afirma que tucanos devem liberar voto no 2.º turno e diz que eleição vai abrir caminho para projeto de centro em 2030, quando legenda quer lançar candidatura presidencial
Presidente nacional do PSDB, o deputado federal Aécio Neves (MG) afirma que o partido não terá candidato à Presidência em 2026, quando avalia que a eleição ainda estará marcada pela “armadilha da radicalização política”, mas diz que, no dia seguinte ao segundo turno, os tucanos já começarão a debater a disputa presidencial de 2030.
“Meu papel hoje, repito, ao retornar à presidência do PSDB é dizer que existe vida inteligente entre os extremos e que nós vamos liderar um projeto para o Brasil”, diz o mineiro em entrevista ao jornal O Estado de São Paulo.
Ele também afirma que a tendência do partido é não apoiar nem o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nem o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) no segundo turno.
“Qualquer um que vença as eleições, infelizmente, nós vamos ter que nos preparar para mais quatro anos de um País dividido ao meio, porque essa divisão interessa aos dois extremos, eles se alimentam dela”, argumenta. “Eu temo que nós estamos prestes a assistir a eleição mais fratricida da história recente do Brasil.”
Aécio também afirma que não tomou uma decisão sobre se vai disputar o Senado por Minas Gerais, mas que hoje sua prioridade é reestruturar o PSDB, partido que já teve uma bancada na Câmara de quase 100 deputados e hoje tem 18.
Confira os principais pontos da entrevista.
O sr. defende que o importante para o Brasil sair dessa polarização seria um governo de centro. Como o sr. está vendo a eleição de 2026?
Começo por dizer que o Brasil é muito maior do que Lula e o bolsonarismo somados, mas infelizmente nós caímos na armadilha da radicalização política e, sendo muito realista, isso ainda vai prevalecer nestas eleições. Mas eu acredito que em 2026, daqui a três meses, nós vamos viver os estertores dessa polarização e aí se abrirá uma avenida no centro para um projeto a favor do Brasil. Hoje, você tem dois projetos que monopolizam ou polarizam a política brasileira um contra o outro. Eu não vejo nenhum a favor do Brasil e, pelo andar da carruagem, se o Lula vencer as eleições, e é uma possibilidade, fará a meu ver um quarto mandato muito mais difícil, com maiores dificuldades do que esse, porque ele vai provar na própria pele o que é uma herança maldita, porque ele, se vencer as eleições, terá que conviver com as consequências da irresponsabilidade que tem sido esse seu governo, sobretudo nessa etapa final. Apenas nos últimos quatro meses foram mais de R$ 230 bilhões em créditos e recursos colocados na economia para ganhar as eleições. Falo uma frase, repito aqui para vocês: o PT, todas as vezes ao longo da história que teve que escolher entre o Brasil e o PT, ficou com o PT e o presidente Lula infelizmente perdeu uma grande oportunidade de, nesse que talvez seja o último ciclo da sua trajetória, uma vitoriosa trajetória política, sair como um estadista, um presidente de todos os brasileiros. Mas de todo modo, se isso ocorrer, nós vamos ter um presidente fragilizado por um conjunto de razões. O bolsonarismo, se perder a eleição, obviamente volta a ter o seu tamanho. Será uma força política importante ali respeitável, mas no seu espaço, longe de ser uma força majoritária. E o PSDB é o partido que está se preparando para liderar um projeto nessa avenida de centro. Meu papel hoje, repito, ao retornar à presidência do PSDB é dizer que existe vida inteligente entre os extremos e que nós vamos liderar um projeto para o Brasil. O governo Lula ao final vai se resumir entre a ampliação dos programas sociais de um lado e aumento da carga tributária de outro. Essa conta não fecha. Os programas sociais são extremamente relevantes. Mas não temos que ter medo de falar que precisamos criar porta de saída para esses programas. O Brasil não pode ser um país onde o orgulho de deixar a herança para o seu filho seja o cartão do Bolsa Família.
Num eventual segundo turno entre Lula e Bolsonaro, qual traria mais risco ao País, na sua avaliação?
Olha, depois de muitas conversas internas, tenho que afirmar, em primeiro lugar, que o PSDB caminha para não ter candidatura própria nesta eleição. Isso foi cogitado há pouco tempo. Eu próprio, você se lembra, sugeri o nome do governador Ciro Gomes como a nossa alternativa. Logo depois ele próprio, lideranças como Tasso Jereisati, Roberto Freire, dentre outras, sugeriram meu nome como esse candidato. Mas nós chegamos à conclusão que nós temos que ter os pés no chão e sim iniciar a construção de um projeto vigoroso para 2030. Acredito que cerca de 70% das candidaturas do PSDB, em o PSDB não tendo uma candidatura própria, tendem a votar contra a candidatura do PT. E talvez 30%, se não houver uma orientação do partido, sobretudo candidatos mais ao Nordeste, tendem a não fazer campanha para ninguém ou estar até com a candidatura do PT, mas não estarão contra o PT por uma lógica eleitoral. Se nós tivéssemos uma candidatura, era outro cenário, mas aí não tendo, eu tenho que estar aqui como presidente do partido para unificar essas correntes todas e, no dia seguinte da eleição, iniciar a discussão do PSDB 2030.
Mas o que seria mais prejudicial para o País para o sr., a reeleição do presidente Lula ou uma eleição do Flávio?
É muito difícil responder a essa pergunta. Eu sempre fui um crítico do PT, quanto mais eu construí a minha trajetória política discordando do PT, mas discordava do ponto de vista conceitual, esse gigantismo do Estado, essa coisa de botar companheirada toda para dentro, essas alianças externas com ditaduras amigas. Fui governador com o presidente Lula, mas eu fazia uma oposição conceitual a ele. Mas nunca fui inimigo do Lula. Acho que o governo do PT vem fazendo mal ao Brasil, porque se está de novo vendo que no PT virou o poder pelo poder. E eu confesso que do outro lado poderia dizer até que eu tenho, do ponto de vista da economia, uma visão mais liberal, então é mais próxima ao que o Paulo Guedes pregou lá atrás. Agora, a gente não sabe ainda quem vai conduzir isso e tal, mas a verdade é que eu não conheço o que eles pensam. E me incomoda. Eu sou filho da democracia, eu começo minha trajetória lutando com a ditadura. Quando alguém flerta contra o regime democrático, flerta com autoritarismo, isso me incomoda. E por isso o PSDB foi ao longo de todo esse período mais recente de governo Bolsonaro para cá o único partido que não se curvou ao bolsonarismo e que não se curvou ao lulopetismo. Isso nos custou caro. Nós nos fragilizamos em muito lugar, fomos acossados de todas as formas por governos. São Paulo talvez seja o caso mais eloquente. Não é porque nos foram tirados quadros importantes eleitos pelo PSDB em troca de emendas, em troca de convênios com o Estado, mas nós não perdemos a nossa essência, nós não perdemos a nossa alma, nós não perdemos a nossa capacidade de acreditar no Brasil. E eu falo isso com emoção mesmo, porque eu acredito, não é possível que a mediocridade vai continuar tomando conta do País. Então, esse caminho de nós não termos uma candidatura é o que nos resta para abdicar e participar destas eleições. Ao contrário, para dar ao Brasil um projeto de futuro. Então, eu acredito que nós temos todas as condições de sermos a grande novidade pós 2026 e na política brasileira.
Não haverá candidato no primeiro turno. Mas não vai apoiar também?
É, nós vamos ter uma reunião da federação PSDB-Cidadania em breve, talvez nessas próximas duas semanas. O caminho natural hoje, depois de discutirmos até as possibilidades de uma candidatura, é o apoio a uma candidatura no centro. Mas o que nós percebemos é que a três meses das eleições ficou muito difícil furar essa bolha. Então, vamos dar um passo atrás para dar vários na frente e construir um projeto de Brasil a partir de agora já destas eleições.
E no segundo turno liberaria por causa dessa divergência?
Aí vai ser um caminho natural, como eu disse aqui, 70% estão num lado, 30% no outro. Faço aqui uma constatação muito realista. Essa é a realidade do PSDB. Uma grande maioria contra o PT, porque nós vamos reocupar o espaço de uma oposição conceitual ao PT. Eu era oposição ao PT muito antes do Bolsonaro se transformar numa liderança nacional. Vejo dois cenários muito difíceis lá na frente, porque eu vou tentar responder a sua pergunta mais diretamente. Qualquer um que vença as eleições, infelizmente, nós vamos ter que nos preparar para mais quatro anos de um País dividido ao meio, porque essa divisão interessa aos dois extremos, eles se alimentam dela. Por isso, nós estamos vendo um discurso do Lula mais radicalizado ultimamente, até com palavreado com que não era muito comum a ele. E em contrapartida, o que o candidato Flávio Bolsonaro faz? Ele tenta resgatar o legado do pai, reacendendo ou fortalecendo as bandeiras que fizeram o bolsonarismo crescer. E aí o Brasil e o interesse do Brasil e as reformas que o Brasil precisa viver de verdade, como essas que eu estou falando aqui na gestão pública, na gestão fiscal do País, na educação, na segurança pública, ficaram de lado. Eu temo que nós estamos prestes a assistir à eleição mais fratricida da história recente do Brasil. Porque não são projetos de país que estão sendo discutidos, são pessoas, são campos políticos com a tentativa de ideologizar o debate, que é uma coisa um pouco falsa também, mas que na verdade contaminou o País.
Será uma briga por espólios?
Eu acho que é isso, é isso. Dos dois lados. Cada um falando para os seus guetos, cada um mais preocupado em manter viva a sua força política no seu gueto, menos preocupado em vencer as eleições, em buscar uma aliança no centro. Sabe quem venceria o Lula nessas eleições se tivesse espaço? Um candidato ao centro com programa liberal, com programa de gestão pública eficiente, porque esse teria no primeiro ou no segundo turno, mais provavelmente no segundo, o apoio da direita.
Mas tem alguns nomes que se colocam.
Mas eu não vejo, infelizmente, não temos hoje, porque os nomes que estão colocados aí me parecem muito mais subsidiários da direita esperando uma brecha para ocupar aquele espaço do que capazes de construir um caminho pelo centro, porque no caminho pelo centro você dialoga com a esquerda também. Eu sempre dialoguei. Você tem que dialogar à direita e à esquerda, em torno de um projeto de país. Eu não vejo esse interesse, essa preocupação.
Qual o tamanho do impacto do caso Master para as eleições? O sr. acha que será um fator determinante ou outras questões estarão em jogo?
Olha, o que eu vejo, e eu estou sendo aqui muito claro e direto com vocês, é um esforço enorme tanto da esquerda, envolvendo aí figuras do governo Lula, quanto da direita para que antes das eleições não aconteça nada. Um esforço conjunto. Há um esforço claro, na minha avaliação, de contenção de danos. Vamos deixar isso adormecido, lá para frente para não contaminar as eleições. Porque se avança, por exemplo, uma delação do Vorcaro, eu acho que boa parte do Brasil esperava que isso acontecesse, salva muito pouca gente.
Voltando para a questão principalmente do Flávio. Além dos áudios com o Vorcaro, ele enfrentou recentemente toda essa questão com a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro. O que seria mais prejudicial à candidatura dele? Qual o peso político que o sr. vê para cada uma das coisas?
Todas têm seu peso. E na verdade é especulação, nós não sabemos a profundidade dessa desavença, assim, em um determinado momento, em razão do próprio Jair Bolsonaro, eles se reúnem novamente, se reencontram. Mas o que na minha avaliação ainda faz com que haja uma dificuldade de uma adesão de uma parcela do centro à candidatura do Flávio é a ausência de um projeto de país. O que hoje eu percebo pelo meu campo do centro de dificuldades numa incorporação maior à campanha do Flávio, por mais que esse meu campo tenha também uma dificuldade enorme com o PT, é a ausência de um projeto para o Brasil, que fique claro e sua fidelidade à democracia, liberdades, de que forma que ele vai tratar a federação, de que forma vai tratar o Congresso. Tem um centro móvel que vai decidir esta eleição, e enquanto o Flávio não mostrar capacidade de gerar confiança nesse pessoal, eu assisti ao filme em 2022, uma parcela do eleitorado tucano, do eleitorado de centro, que havia ajudado a eleger o Bolsonaro em 2018, voltou para o PT. Se o Flávio não fizer uma movimentação ao centro, escolher um pouco de algumas bandeiras, repito, principalmente nessa, ser muito claro nessa questão da democracia, dos valores, das instituições. E por mais doloroso que seja dizer que nós vamos enfrentar esta eleição ainda com essa polarização, eu acho que esse é o último embate dessa forma, onde dizimar o inimigo passou a ser mais importante do que apresentar um projeto para o País. E o PSDB está se preparando para essa segunda etapa.
Que tipo de aceno Flávio teria que fazer para o centro?
Ele tem que mostrar um distanciamento seguro de quem não considera a democracia um valor absoluto e inegociável. Ele vai saber como fazer isso. Por outro lado, eu acho que ele teria que ter a capacidade, em determinados momentos até a coragem de enfrentar questões que estão aí e que passam pelo atual governo. Vamos lá. Programas sociais. Reconhecer que os programas sociais têm um impacto hoje real na vida das pessoas, já são programas de Estado, mas que não podem ficar adormecidos como PT cresceu com a lógica de administrar a pobreza, não de superá-la. O Flávio, estou dando até uma dica para ele aqui, se precisar tem coisas que estão aí, vão ter que continuar, então ele tem que aceitar, até porque não são nem realizações do Lula, por exemplo, uma reforma tributária, não é do Lula, reforma tributária é do Brasil. Reforma previdenciária é do Brasil. Então, ele tem que enfrentar um pouco essas questões e ir abrindo uma porta de diálogo mais ampla com o centro. E isso não aconteceu até hoje. Hoje, a prioridade dele, pelo que me parece, é muito mais se consolidar como o legítimo herdeiro do espólio bolsonarista. Então, por isso ele precisa também falar para essa coisa dos Estados Unidos e tal, que eu acho uma grande bobagem, ver quem é mais amigo do Trump. Aí sobra para o Lula também, porque o Lula foi lá fazer uma visita de Estado, chegou aqui comemorando, conseguiu tirar um sorriso do Trump. Infelizmente, nós estamos nos acostumando com a mediocridade, com a incapacidade das pessoas de sonharem alto.
O sr. concorre a que neste ano?
Eu não tomei uma decisão. Meu mantra é que política é arte de administrar o tempo. Então, eu estou conversando muito em Minas, eu estou indo para lá nesta semana e novamente tem algumas possibilidades. A candidatura ao Senado é uma possibilidade, mas se eu não conseguir conciliar com o que me move hoje verdadeiramente, que é construir um partido para o Brasil e entregar isso a uma nova geração, eu fico com o partido. Meu papel aqui é mais relevante. Para ser candidato ao Senado, tenho que estar muito consciente de que isso não atrapalhará essa coordenação, esse movimento que eu estou fazendo no Brasil inteiro, porque o fato é que eu tenho que mergulhar numa campanha, por mais que eu possa estar bem, estou bem nas pesquisas. É uma decisão que eu confesso não tomei ainda, esta semana e a outra são decisivas. A verdade é o seguinte, eu já fui senador. Já fui governador. Na Câmara, já fui presidente. Então, esse papel meu aqui, pensando no Brasil, eu tenho espírito público, ele é mais relevante para o Brasil do que eu chegar no Senado sem um partido sólido. Não tem sentido eu chegar no Senado com PSDB fragilizado. Mas se eu chego no Senado e consigo administrar bem essa vitória nossa, é claro que isso tem um peso também e o Senado vai precisar muito também de bom senso, de equilíbrio, de quem faça pontes, porque vai chegar muita gente lá com a dinamite no bolso do paletó para, no primeiro momento, explodir aquilo ali. Tenho como prioridade absoluta presidir o PSDB e levar o PSDB a ter um projeto em 2030.
O sr. acha que o senador Cleitinho vai ser candidato ao governo de Minas?
É uma incógnita e é uma incógnita que paralisa o jogo em Minas. Por isso também você não tem como tomar uma decisão. Eu converso muito com o Cleitinho aqui. Eu acho o senador Cleitinho um jovem muito bem-intencionado, o jeito dele com as limitações que todos nós temos, é um cara do bem. Tenho conversado com ele também. Eu estou avaliando o quadro como todo, como eu tenho conversado com outros atores, estive recentemente com Alexandre Kalil, que também gostaria de ter uma construção conosco, mas não há como. É preciso que o quadro majoritário de governador esteja estabilizado para nós vermos onde existe uma aliança que seja adequada, que me dê conforto, porque eu não sou mais um candidato, eu sou presidente do PSDB, eu não posso estar também num alinhamento local diferente do meu discurso nacional.
Como é que o sr. está vendo a eleição para o PSDB? Qual a estimativa para o Congresso e onde vocês terão governadores?
O PSDB vai ser a grande surpresa desta eleição. Nós já tivemos um desempenho muito positivo na janela partidária, proporcionalmente fomos o partido que mais cresceu e vamos crescer muito mais. Vamos mais que dobrar a nossa bancada atual. Estou calculando algo em torno de 35 parlamentares federais eleitos pelo PSDB, o que já nos coloca na primeira prateleira. E olha lá, sem governo, sem fundos maiores. Nós somos o pobre nesse conjunto de partidos aí. Além da bancada, que é a nossa prioridade, nós temos candidaturas a governos competitivas, como a do Ciro Gomes, no Ceará. JHC, em Alagoas, que é uma reinserção forte nossa no Nordeste. Vicentinho Júnior, em Tocantins, que lidera as pesquisas. Temos o Marconi Perilo, em Goiás. Temos um candidato no Rio Grande do Sul que ainda não pontua muito bem nas pesquisas, Maranata, ex-prefeito de Guaíba. Vamos refazer o partido no Rio Grande do Sul, onde nós levamos também um baque muito grande. E vamos ter aí a prioridade à Câmara. Vamos ter umas quatro, cinco candidaturas ao Senado.
Por Levy Teles/Danielle Brant/Etadão/Foto: Kayo Magalhães/Câmara dos Deputados/Arquivo

