
Quando as mangueiras começam a ser tomadas por gafanhotos no período que se segue às primeiras chuvas, o telefone de Jacó costuma tocar com frequência. Jardineiro em Serra do Ramalho, município localizado no extremo oeste da Bahia, ele utiliza uma pequena rede acoplada na extremidade de uma longa vara para apanhar no alto das árvores. É assim que ele apanha os insetos vivos camuflados na folhagem.
Jacó de Souza, 38 anos, é conhecido por ter o faro para encontrar gafanhotos, atua nas horas vagas sob a demanda dos pescadores, realizando as capturas apenas quando chegam as encomendas. O público que busca a isca é composto por frequentadores de Serra do Ramalho e, sobretudo, por visitantes vindos de diversas cidades de Minas Gerais.
Em vez do simples descarte do manejo agrícola, os animais coletados ganham destino em caixas de papelão ou garrafas plásticas. A alta resistência dos animais facilita mantê-los vivos por dias até o local de pesca, a poucos quilômetros, onde vão se tornar isca de pescadores.
Este inseto pertence à família dos acridídeos, popularmente conhecidos como gafanhotos-verdes de pastagem. Na Ecologia da Caatinga e do Cerrado, esses organismos desempenham papéis fundamentais ao acelerar a decomposição vegetal, enriquecer o solo com nitrogênio e servir de alimento para aves, anfíbios e répteis. Confira reportagem na integra Antônio Laranjeira/Agenciaeconordeste
Gafanhotos também convertem biomassa vegetal em proteína animal, tornando-se elo fundamental da cadeia alimentar de aves, lagartos, anfíbios, pequenos mamíferos e diversos invertebrados predadores. Em condições naturais, sua atividade de alimentação ainda influencia a dinâmica da vegetação, embora explosões populacionais possam causar prejuízos às lavouras e pastagens, como é o caso de Serra do Ramalho.
A “moda do gafanhoto” ultrapassou as fronteiras do município, estando presente também em outras cidades vizinhas ao longo desse trecho do Médio São Francisco, de acordo com fontes locais. Os insetos capturados vivos chegam à beira da água vendidos por R$25 a dúzia viva, garantindo renda complementar para quem realiza a coleta. Cada pescador compra de 6 a 12 gafanhotos para uma boa pescaria.
Fundado a partir de projetos de colonização agrícola na década de 1970, Serra do Ramalho consolidou sua economia sobre três pilares: agricultura irrigada, pecuária e pesca. A proximidade com o Rio São Francisco favorece a produção de frutas, hortaliças e grãos, enquanto extensas áreas de pastagens sustentam rebanhos bovinos distribuídos pelos assentamentos rurais.
A atividade surgiu da oportunidade de transformar o incômodo das pragas em utilidade para quem frequenta o rio. No rancho mantido por Fabiano Rocha, 35 anos, às margens do Rio São Francisco, a procura pelos insetos virou rotina ao longo da temporada de pesca. Fabiano conta que a descoberta da eficácia dessa isca é recente, fruto da observação direta dos animais capturados no local.
“Um cliente abriu o peixe para tratar e encontrou os gafanhotos na barriga dele. A gente achou inusitado, porque o pacu-caranha aqui é conhecido como porco do rio, come de tudo, mas gafanhoto era novidade. Na semana seguinte, comentei isso com outros clientes e um deles falou que, na cidade onde ele costumava pescar, uma das iscas principais era justamente o gafanhoto”, relata o momento em que percebeu o potencial do inseto.
Agencia Eco Nordeste

