
Aos dezoito anos de idade, Romualdo percebeu que as entradas de seu cabelo aumentavam significativamente a cada mês e que o cocuruto de sua cabeça estava ficando pelado devido à queda constante dos fios capilares.
Aos vinte e um anos de idade, Romualdo estava careca. Possuía um pouco de cabelo aos lados da cabeça, acima das orelhas, mas o centro estava lisinho.
Romualdo logo se conformou, já que o pai ficou careca muito jovem, e na família, tanto do pai, quanto da mãe, cabelo era um artigo de luxo.
Após se formar em engenharia, Romualdo abriu um escritório na cidade, e em pouco anos, conseguiu se destacar em sua profissão, ganhou muito dinheiro e prestígio.
Muitas mulheres quiseram namorar o careca Romualdo, e ele pode escolher a mais bela das pretendentes para o casório que marcou época naquela cidade.
Ao lado da esposa, Romualdo se tornou muito querido na sociedade, participava de eventos beneficentes e até chegou a exercer o mandato de vereador por quatro anos, sendo eleito com a maior votação da cidade. Porém, depois de um bem-sucedido mandato, Romualdo percebeu que a política não era muito bem o que queria para sua vida.
Com o passar dos anos, seu filho, que também ficou careca muito novo, se casou e Romualdo passou a ser avô.
Todos na cidade tinham muito apreço pela figura imponente, sorridente e careca de Romualdo, e para falar a verdade, ser careca nunca foi problema para ele, no auge de seus cinquenta e cinco anos de idade.
Até o dia em que decidiu fazer um transplante capilar.
O pessoal da cidade e até seus familiares estranharam o fato de Romualdo ter marcado aquele procedimento de uma hora para outra. Gastou catorze mil reais, e depois de algumas semanas usando um boné até a recuperação do procedimento, saiu às ruas com seu cabelo novo.
De cara, os moradores estranharam, jamais imaginariam ver o Romualdo de cabelo e aquilo foi motivo de piadas e insinuações.
— Não sabíamos que o Romualdo era tão inseguro quanto à sua imagem.
— Depois de velho quis ficar com aparência mais nova!
— Nem parece mais o Romualdo que tanto conhecíamos!
Em pouco tempo, a desconfiança e estranhamento fizeram alguns amigos se afastarem de Romualdo e ele nem era mais convidado para participar de eventos beneficentes.
Com tanta pressão por ter implantado sua nova cabeleira, sua esposa pediu o divórcio. Pior que isso, nenhuma mulher na cidade teve mais interesse em Romualdo.
— Com cabelo ele é muito sem graça!
Hoje, Romualdo mora em outra cidade, trabalha numa grande empresa de construção civil e está num relacionamento estável com uma moça vinte anos mais nova.
Romualdo está feliz, diz que agora sabe quem realmente são as pessoas que pode confiar, e não se arrepende do transplante realizado, muito menos, do gasto atual com aparelhos de barbear, que usa diariamente para deixar a sua cabeça lisinha novamente.
RODRIGO ALVES DE CARVALHO nasceu em Jacutinga (MG). Jornalista, escritor e poeta, possui diversos prêmios em vários estados e participação em importantes coletâneas de poesia, contos e crônicas promovidas por editoras e órgãos literários. Atualmente colabora com suas crônicas em conceituados jornais brasileiros e Blogs dedicados à literatura.
Em 2018, lançou seu primeiro livro intitulado “Contos Colhidos”, pela editora Clube de Autores. Trata-se de uma coletânea com contos e crônicas ficcionais, repleto de realismo fantástico e humor. Também pela editora Clube de Autores, em 2024, publicou o segundo livro: “Jacutinga em versos e lembranças” – coletânea de poemas que remetem à infância e juventude em Jacutinga, sua cidade natal, localizada no sul de Minas Gerais. Em 2025, publicou o terceiro livro “A saga de Picolândia” – série de relatos sociopolíticos acontecidos em Picolândia – uma pequena cidade do interior, cuja sua principal fonte de renda é a produção de sorvetes. Com um tom humorístico e irônico, com uma pitada de realismo fantástico, a obra reúne diversas crônicas engraçadas narradas por um morador desta cidade.
Por Rodrigo Alves de Carvalho

