A Bossa Nova é Nossa

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É de se notar que o Nordeste brasileiro é riquíssimo na promoção de elementos culturais marcantes em todo o Brasil. Este espaço de experiências tão abrangentes forma seus gênios e promotores de elementos tão significativos, que marcam as identidades por décadas ou até séculos no cotidiano dessas sociedades, fazendo-as viver sem a distinção do indivíduo e sua cultura. Uma delas é a música, que vincula na alma das pessoas o sentimento presente nas melodias cantadas. O Baião, de Luiz Gonzaga, representa um marco elementar da cultura nordestina. Quem há de negar a coroa ao rei do Baião, na sua terra, em plena festa de São João? Ninguém. Ninguém poderá também tirar o pessoal do Ceará, os baianos tropicalistas, o som pernambucano. Ninguém.

Outra grande marca da música, que possui raízes fincadas nas nossas terras ribeirinhas, é a Bossa Nova. A Bossa Nova de Tom e Vinícius, que tão distante, nas praias de Copacabana, poderia ser algo distante do coração nordestino se o mestre João Gilberto não tivesse aparecido com o seu violão e voz mansa. Tudo começou no seu dedilhar, e podemos afirmar que João é a sua alma: as letras de Vinícius, a melodia de Tom Jobim, mas o diferencial foi João Gilberto Prado Pereira de Oliveira — nascido em Juazeiro da Bahia, no início da década de 1930. Revolucionário, mudou a forma como a música popular brasileira via a si mesma.

Aos nossos olhos, a música brasileira, a Bossa Nova ficou como um marco no final da década de 1950 para 1960, mas para o mundo, é a glória da beleza, suavidade e complexidade da música brasileira. Ovacionada nos quatro cantos do mundo, é a Bossa Nova que faz a propaganda do Brasil para o mundo. A Bossa Nova é nossa. Tem um coração nordestino, ribeirinho, assim como tem o coração carioca. Por que esquecemos disso? Por que? Se a propaganda musical do Brasil mundo afora, não poderia ser a nossa propaganda. Imaginar que grandes músicos se inspiraram nas nossas terras, viveram nelas, não nos pertence?

No dia do aniversário dos 94 anos de João, no dia 10 de junho, houve uma belíssima comemoração do Pai da Bossa Nova, com direito a surpresas majestosas: Os frutos da nova geração, a novíssima geração que segue esse legado precioso da Bossa Nova. Na abertura, Maurício Dias (Mauriçola), músico que comprou para si a guerra da valorização do gênero musical, trouxe a execução das belíssimas músicas da Bossa Nova, assim como o exímio guitarrista e violonista Edésio César e o cantor Carlos. Foi um

espetáculo de execução e beleza. A noite abrilhantou também com Silas França, acordeonista e participante dessa nova geração da Bossa Nova, que utilizou o violão do mestre João Gilberto para acompanhar Luiza Oliveira Gilberto, a filha do mestre João Gilberto. A canção “Bahia com H”, de Denis Brean e Ary Barroso, executada com maestria por João, Gil e Caetano, encaixou na voz de Luiza e no violão de Silas com a sonoridade de união Rio-Bahia que a Bossa possui. A noite teve mais uma surpresa: a presença da neta de João e Astrud Gilberto, Sofia Gilberto, a cantora mirim que encanta com sua voz, carisma, música e determinação de continuar o legado de seu avô na música. Uma noite que encantou aqueles que estavam prestigiando em Juazeiro — que cabe ressaltar: eram poucos, em números vergonhosos para a importância do evento e de seus artistas.

Cabe-nos refletir sobre o valor musical que temos e legamos. Será que nós conhecemos o potencial e a qualidade de talentos que possuímos em nossa terra? Será que nutrimos, em nossas gerações, o potencial que João, Gonzaga e tantos outros gênios musicais ou sufocamos na superficialidade do desprezo? Temos em nossas mãos um potencial tão grande que a música estrangeira curva-se em respeito à nossa nobreza. A Bossa, é nossa. A Bossa Nova é nossa.

* Eduardo França, escritor e historiador.