Evangélicos no centro da disputa

nacional

A Marcha para Jesus, um dos maiores eventos religiosos do país, voltou a evidenciar como a fé e a política caminham lado a lado no Brasil contemporâneo. Realizada em São Paulo, a edição deste ano reuniu autoridades de diferentes espectros ideológicos, expondo não apenas divergências políticas, mas também a crescente disputa pelo eleitorado evangélico, considerado estratégico em qualquer eleição nacional.

O episódio envolvendo o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), o advogado-geral da União, Jorge Messias, e o ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça revelou os cuidados adotados por figuras públicas ao participar de manifestações religiosas em um ambiente altamente polarizado. Apesar de dividirem o mesmo trio elétrico em determinados momentos, os três evitaram aproximações numa demonstração de que a presença no evento tinha significado político tão relevante quanto o religioso.

A cena ilustra uma transformação observada nas últimas décadas. Inicialmente concebida como uma celebração de fé, a Marcha para Jesus passou a ocupar espaço privilegiado no calendário político brasileiro. Governadores, prefeitos, parlamentares, ministros e pré-candidatos costumam marcar presença no evento em busca de visibilidade junto ao segmento evangélico, que representa uma parcela cada vez maior da população e exerce influência crescente nas urnas.

A disputa por esse público, entretanto, deixou de ser exclusividade de lideranças conservadoras. Se durante muitos anos a direita teve maior identificação com o movimento evangélico, hoje, representantes de governos de esquerda e centro também investem na aproximação com o setor. A participação de Jorge Messias, enviado pelo presidente Lula (PT), simboliza essa estratégia de diálogo adotada pelo Palácio do Planalto para ampliar sua interlocução com as igrejas e os seus fiéis.

Embora a presença de autoridades seja cada vez mais comum, permanece o debate sobre os limites entre manifestação religiosa e utilização política desses espaços. Na prática, a Marcha para Jesus consolidou-se como um dos principais termômetros da relação entre religião e poder no Brasil, atraindo candidatos e governantes de todas as correntes ideológicas em busca de legitimidade e conexão com um eleitorado decisivo.

Público se incomodou com tom político – A Marcha teve 53,4% de menções negativas nas redes sociais, segundo levantamento da AP Exata. A análise da consultoria aponta que a rejeição se concentrou no que foi visto como uso eleitoral do evento religioso e protagonismo concedido a lideranças políticas. Do total de menções, 28,9% foram positivas e 17,7% neutras. A consultoria analisou 200 mil mensagens publicadas no Instagram e no X entre os dias 3 e 5 de junho – ou seja, o levantamento teve início um dia antes do evento ocorrer. “Os dados mostram que houve um incômodo do público devido ao aproveitamento político de um evento voltado à fé cristã”, afirmou Sérgio Denicoli,

Por Magno Martins/CEO da AP Exata.