
Em 30 de novembro deste ano de 2026, completar-se-á 91 anos da morte de Fernando Pessoa. Ao desaparecer, com 47 anos – ele nasceu em Lisboa, em 13 de junho de 1888 e completaria 138 anos neste aniversário, se vivo fosse – deixava uma grande obra em prosa e verso.
Para construir seu singular e complexo universo poético, Fernando Pessoa parte da associação entre o pensar e o sentir, exprimindo-os em versos logo tornados verdadeiros emblemas: “O poeta é um fingidor. / Finge tão completamente / Que chega a fingir que é dor / A dor que deveras sente.”
Os heterônimos – personagens imaginários, dotados de estilos diferentes, através dos quais o “poeta fingidor” passou a se expressar literariamente – podem ter nascido na Cervejaria Jansen. Na mesma casa e época, Fernando Pessoa concebeu a revista Orfeu, em parceria com Mário de Sá-Carneiro, outro poeta português. Ambas as criações teriam nascido entre garfadas do famoso bife da casa, que toda Lisboa comentava.
Fernando Pessoa escreveu em seu nome e no dos heterônimos Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos. Criou ainda um grupo de semi-heterônimos, que totalizaram mais de cem.
O sentido dessas despersonalizações provoca debates. Em todo o caso, era um fingimento prodigioso. No exemplar verbete que a Enciclopédia Mirador Internacional dedica a Fernando Pessoa, Caeiro é apresentado como “poeta das sensações puras, naturalista e cético, hostil às regras métricas”; Reis, como “pagão e estóico, neoclássico que escreve odes horacianas e construção elíptica (…), sustenta a convicção de que o único caminho a se tomar na vida é o de afrontar a sorte com o silêncio”; Campos “cultiva a audácia e a energia, mas contraditoriamente faz a apologia do anti-heroísmo”.
Pessoa era um sujeito alto e franzino, tinha pernas longas e o tórax pouco desenvolvido, embora praticasse ginástica sueca. Possuía o rosto comprido e as mãos delgadas. Caminhava em passos rápidos e desconjuntados. Vestia ternos cinzentos, pretos ou azuis. Usava chapéu inclinado para o lado direito. Os óculos eram redondos, com lentes grossas, que corrigiam a miopia e escondiam um pouco os inexpressivos olhos castanhos. Fumava demais, cerca de 80 cigarros por dia, e adquirira o característico pigarrear dos tabagistas. Tomava diariamente vários cafés e diversos tragos de bagaço, nome popular da bagaceira, aguardente feita com o bagaço da uva que acabou de ser usada para o vinho.
É raro um país e uma língua adquirirem quatro grandes poetas de uma vez só. Pessoa é um dos maiores poetas da língua portuguesa, senão o maior.
Por Luiz Carlos Amorim que é escritor, editor e revisor – Fundador e presidente do Grupo Literário A ILHA, com 46 anos de trajetória, editor das Edições A ILHA, que publicam as revistas SUPLEMENTO LITERÁRIO A ILHA e ESCRITORES DO BRASIL. Cadeira 19 da Academia Sulbrasileira de Letras, cadeira 19 da Academia Desterrense de Literatura.

