
O governo brasileiro considera que a interferência dos Estados Unidos nas eleições do país já está em curso e tem potencial de ser ampliada progressivamente até a disputa do segundo turno, informa Caio Junqueira, da CNN Brasil. De acordo com a avaliação do Palácio do Planalto, a interposição norte-americana ocorre por meio de pelo menos quatro frentes distintas que englobam pressão política, impulsionamento digital, financiamento e reuniões estratégicas.
O cenário de alerta é respaldado por um relatório recente da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), encaminhado no final de agosto ao Palácio do Planalto, ao Ministério da Justiça e ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O documento elevou a possibilidade de influência direta dos Estados Unidos nas eleições brasileiras a um “nível de criticidade”, mapeando uma “tendência de escalada de pressão sobre o Brasil” e uma “intensificação seletiva e reconfiguração da pressão exercida pelos EUA”.
Segundo o levantamento governamental, a primeira frente de atuação consiste na pressão política direta exercida pelo presidente Donald Trump e pelo secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio. O Palácio do Planalto entende que o modelo adotado busca replicar episódios recentes em outros países da América Latina, como Colômbia e Honduras, onde houve manifestação pública direta de Trump em favor de candidatos da direita.
Em Honduras, durante o pleito de 30 de novembro de 2025, Trump publicou mensagens nas redes sociais quatro dias antes da votação para conclamar o eleitorado a votar em Nasry “Tito” Asfura. Na ocasião, o líder norte-americano declarou que a candidata da esquerda, Rixi Moncada — que liderava as pesquisas até então —, não poderia vencer por ser aliada de Nicolás Maduro, afirmando ainda que a vitória da candidata entregaria o país a uma “narcocomunista” e admiradora de Fidel Castro. Rixi Moncada terminou a disputa em terceiro lugar. De forma análoga, em junho de 2026, Trump usou a rede social Truth Social para declarar apoio total e irrestrito ao colombiano Abelardo de la Espriella, classificando-o como um líder “forte, inteligente e determinado”, enquanto rotulou seu oponente de esquerda, Iván Cepeda, como um “marxista radical”.
A segunda frente envolve a suspeita de impulsionamento pago de perfis pró-Flávio Bolsonaro a partir do território norte-americano. A hipótese é sustentada pela campanha do PT e compartilhada pelo candidato do partido Missão, Renan Santos. As legendas apontam que houve uma manipulação similar na eleição colombiana para inundar as redes sociais com mensagens em favor de Espriella. A campanha de Flávio Bolsonaro nega qualquer tipo de impulsionamento vindo do exterior.
A terceira frente refere-se ao financiamento eleitoral por meio do fundo de investimentos Rockbridge Network. A suspeita foi levada ao debate público por Renan Santos e endossada pelo PT, que formalizou uma denúncia junto ao Supremo Tribunal Federal (STF). A acusação sustenta que o fundo, cofundado pelo vice-presidente norte-americano J.D. Vance em 2019, estaria financiando a candidatura de Flávio Bolsonaro. A legislação eleitoral brasileira veda categoricamente doações ou repasses de recursos estrangeiros a partidos e candidatos. A campanha de Flávio Bolsonaro nega qualquer recebimento ou irregularidade.
A quarta frente mapeada diz respeito a encontros realizados por autoridades norte-americanas com influenciadores digitais brasileiros da direita. Segundo petistas, as reuniões tiveram como objetivo apresentar a visão e o entendimento dos Estados Unidos sobre o cenário eleitoral brasileiro, embora o tema oficial das conversas tenha sido delimitado como liberdade de expressão e ambiente digital.
As motivações geopolíticas para a investida dos EUA estão detalhadas no relatório da Abin, que analisou documentos do governo Trump emitidos entre novembro de 2025 e maio de 2026. A agência de inteligência concluiu que os objetivos estratégicos de Washington são a “redução da influência de potências rivais dos EUA na América Latina e de negação do acesso dessas potências a ativos estratégicos, riquezas naturais e infraestruturas na região, em favor de seu controle, direto ou indireto, pelo governo dos EUA ou pelo capital privado estadunidense”.
No diagnóstico do governo brasileiro, a disputa global travada entre Estados Unidos e China transforma o Brasil em uma peça-chave para a tentativa norte-americana de conter a presença chinesa no continente, dada a proximidade diplomática e econômica entre Brasília e Pequim. Além disso, a doutrina de segurança do governo norte-americano para a região contempla um plano de suposto combate ao narcotráfico que avança sobre nações vizinhas governadas pela direita, cuja viabilidade depende diretamente do apoio e da participação do Brasil.
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