
O presidente Lula (PT) atribuiu o mau resultado obtido no primeiro turno da eleição presidencial, no qual terminou com menos votos que Flávio Bolsonaro (PL), a problemas na comunicação de sua campanha, que deve passar por uma reformulação.
A campanha petista avalia ter perdido terreno nos grandes centros, como Minas Gerais e São Paulo. Além disso, deve trazer para dentro da campanha aliados como a ex-presidente do PT Gleisi Hoffmann, derrotada na eleição ao Senado no Paraná.
Integrantes da campanha veem como essencial aumentar a rejeição do eleitorado a Flávio. As pesquisas de opinião mostram que os candidatos bolsonarista e petista têm níveis de rejeição semelhantes.
Lula acompanhou quase toda apuração de votos de um hotel em São Paulo. A previsão é de que ele volte a Brasília na manhã desta segunda-feira (5), e há expectativa de uma reunião do comando da campanha no período da tarde.
Na primeira declaração após a apuração, na noite de domingo, Lula disse que o resultado foi inesperado e que, a partir de segunda, “começa uma nova campanha”.
“O resultado muitas vezes é inesperado, a gente nunca consegue tudo aquilo que queria. Eu confesso para vocês que estava convencido que ia ganhar a eleição no primeiro turno”, disse, mantendo publicamente um tom confiante.
O presidente da República afirmou que no segundo turno começa uma nova campanha, só entre os dois. “Apenas entre dois candidatos a gente vai poder mostrar a diferença das propostas que a gente tem para o Brasil”, afirmou.
O ministro José Guimarães (Relações Institucionais) afirmou ser necessário reforçar a busca de apoio dos partidos de centro para derrotar Flávio Bolsonaro na etapa decisiva. Desde a redemocratização, em 1989, nenhum candidato a presidente que terminou o primeiro turno na liderança perdeu uma eleição.
A comunicação, especificamente, foi um assunto que causou atritos em diversos momentos da campanha. Há três, às vezes quatro, núcleos nesse setor, que não agem de forma coordenada.
Esses grupos são capitaneados pelos marqueteiros Sidônio Palmeira e Raul Rebelo, pelo fotógrafo Ricardo Stuckert, pela responsável pelas redes sociais do PT, Nicole Briones, e até pela primeira-dama, Janja Lula da Silva.
Inicialmente, a ideia do entorno de Lula era uma campanha de segundo turno que reforçasse a comparação entre os governos petistas e a gestão de Jair Bolsonaro (PL), pai de Flávio. Também era previsto foco nas regiões Sul e Sudeste.
Esse cenário, porém, foi traçado antes da votação de domingo (4). Nas últimas semanas, as pesquisas mostravam um cenário acirrado, com crescimento de Flávio, mas Lula sempre aparecia numericamente à frente nas intenções de voto.
A avaliação dos petistas era que Lula terminaria a primeira etapa à frente de Flávio. Ou seja, trata-se de um plano feito para um cenário diferente do atual, e que poderá ser revisto.
Com 99,35% das urnas apuradas, o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro tinha 47,16% dos votos e Lula, 45,01%.
O grupo político do presidente da República chegou ao fim de semana da eleição embalado graças ao alto comparecimento de apoiadores nos últimos atos de campanha de Lula, principalmente em Recife, Belém, Salvador e São Paulo.
No domingo da eleição, porém, o clima foi mudando. Diversos aliados de Lula relataram à reportagem ao longo do dia de votação estarem aflitos e chegaram a temer que Flávio pudesse ser eleito no primeiro turno.
A campanha de reeleição de Lula demorou para engrenar. Primeiro, houve uma falha logística. O plano montado pela cúpula petista para distribuir material gráfico para os estados não funcionou, e apoiadores do presidente ficaram com capacidade limitada de pedir votos para Lula durante semanas.
Além disso, o discurso inicial do esforço de reeleição do presidente era leve e focava em promover o atual governo do presidente da República. Só depois de Flávio Bolsonaro crescer nas pesquisas o grupo de Lula adotou tom mais incisivo contra o adversário.
Por Catia Seabra, Caio Spechoto e Mariana Brasil/Folhapress/Foto: Ricardo Stuckert/Arquivo/PR

