Eleita à Câmara pela Bahia, Maria Marighella evoca legado do avô e projeta renovação no PT

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Deputada vai assumir mandato na Câmara 80 anos depois do avô, Carlos Marighella, cassado em 1948

Quando for empossada em fevereiro de 2027, Maria Marighella (PT), 50, levará para a Câmara dos Deputados uma trajetória recente de seis anos na vida pública e um legado familiar na política que passa por algumas das páginas mais importantes da história brasileira recente.

Neta do político, escritor e guerrilheiro baiano Carlos Marighella (1911-1969), Maria foi eleita domingo (4) com 108.418 votos, desempenho que fez dela a deputada federal do PT mais votada de Salvador. Fez campanha ancorada em um voto de opinião que andava em baixa na Bahia nos últimos ciclos eleitorais.

Defendendo uma renovação programática e geracional do PT, a atriz, produtora cultural e ex-vereadora de Salvador evoca o avô ao dizer que pretende projetar novas lutas no Congresso Nacional.

“[O mandato] É um encontro com a nossa memória para projetar, como dizia Marighella, ‘as novas gerações, a despeito dos que pretendem distorcer-lhes o caminho’. Tem um simbolismo, mas sobretudo tem uma luminosidade nessa presença que é muito inspiradora”, afirma a deputada eleita.

Maria chega à Câmara oito décadas depois de Carlos Marighella, que foi deputado na Assembleia Nacional Constituinte eleita em 1945. Ele foi cassado em janeiro de 1948 após o registro do PCB (Partido Comunista Brasileiro) ter sido cancelado. A Câmara anulou simbolicamente as cassações em 2013.

Maria diz ver naquela bancada constituinte de 1946 elementos que ainda considera atuais, como a defesa da soberania nacional, da indústria brasileira, dos direitos das mulheres e da reforma agrária. A nova deputada diz querer fazer uma “justa tradução” dessas bandeiras para o presente.

“O momento exige um pouco dessa inspiração que foi Marighella. A bancada Constituinte de 1946 que já aponta um pouco para a nossa Constituição de 1988, com direitos ali muito bem desenhados. E foi uma bancada que enfrentou o que seria ali uma extrema-direita e o imperialismo norte-americano”, afirma.

A deputada também identifica uma mudança geracional e de perfil na esquerda que chega ao Congresso em 2027. E destacou o crescimento da bancada feminina, que passou a reunir nomes mais jovens ou em primeiro mandato em diferentes partidos do campo progressista.

Na campanha, o sobrenome Marighella chegou a ser usado como arma política contra a agora deputada eleita. Em setembro, o Tribunal Regional Eleitoral da Bahia determinou a retirada de um vídeo da candidata Quécia Reis (Missão), que classificava Maria como “perigosa para a Bahia”. A Justiça considerou o conteúdo propaganda eleitoral negativa com difamação.

A deputada eleita enumera como prioridades do mandato áreas como a cultura, meio ambiente, direitos das mulheres, educação, ciência, moradia e mudanças nas relações de trabalho.

A cultura, área em que construiu sua carreira, deve ser o principal eixo de sua atuação. Antes de chegar ao Congresso, presidiu a Funarte (Fundação Nacional de Artes) durante o governo Lula (PT).

Ela afirma que o setor deve ser tratado como uma matriz do desenvolvimento socioeconômico, passando por debates sobre emprego, inteligência artificial, plataformas digitais e regulamentação dos serviços de streaming.

Ao citar o segundo turno da eleição presidencial entre o presidente Lula e o senador Flávio Bolsonaro (PL), a deputada eleita diz que a diferença no primeiro turno foi a menor entre os dois candidatos mais votados desde a redemocratização. E defendeu uma estratégia que una presença nas ruas e atuação nas redes sociais.

Ela destaca que resultado adverso do primeiro turno não deve desmobilizar a esquerda. “A gente precisa ir para a rua com a mesma disposição que a gente foi para o primeiro turno. Eu acredito muito nesse casamento entre rua e rede”, afirma.

Por João Pedro Pitombo/FolhapressFoto: Luiz Nuvem/Divulgação/Arquivo