Análise: Direita abandona Flávio Bolsonaro e já aponta os canhões para 2030

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A carta de Flávio Bolsonaro (PL) em que se declara presidente eleito, apesar da derrota nas urnas, provocou um rápido movimento de distanciamento entre aliados que estiveram ao seu lado durante a campanha. Em vez de aderirem ao discurso de contestação do resultado eleitoral, figuras próximas ao senador passaram a defender publicamente o reconhecimento da vitória de Lula (PT), deixando claro que agora os canhões estão voltados para a eleição de 2030.

O sinal mais evidente veio de Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha. Questionado por jornalistas nesta quarta-feira (28), o senador afirmou que o partido não tem provas para sustentar a acusação de fraude eleitoral. Ao comentar a carta do aliado, classificou o texto como um “desabafo” e ponderou que expressar indignação não constitui crime.

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), também adotou uma posição parecida. Forte nome para a próxima corrida ao Palácio do Planalto, o gestor foi direto ao defender o respeito ao resultado das urnas e a necessidade de “seguir em frente”. Reeleito para comandar o maior colégio eleitoral do país, o ex-integrante dos governos Dilma (PT), Temer (MDB) e Bolsonaro tem interesses políticos próprios e precisa preservar a imagem de liderança capaz de dialogar para além do núcleo mais radical do bolsonarismo.

A manifestação do candidato derrotado Ronaldo Caiado (PSD) seguiu a mesma linha. Ao falar em renovação política, ele destacou que a proposta defendida durante a campanha era promover uma mudança de rumo, mas ressaltou que democratas devem se curvar à decisão da maioria e ao resultado da apuração. Já Augusto Cury recorreu a uma metáfora para criticar a postura do filho de Jair Bolsonaro. Segundo o escritor, também derrotado neste ano, um piloto não deveria abandonar o barco.

O conjunto das manifestações revela um problema para Flávio: a fragilidade de duas alianças. O apoio durante a campanha não significou um compromisso automático com qualquer reação à derrota. O Centrão está novamente alinhado ao PT e o mercado financeiro já voltou ao normal. Lideranças que podem disputar espaço na direita democrática também demonstraram preocupação em preservar sua credibilidade.

O isolamento do ’01’, porém, não significa necessariamente o rompimento definitivo desses aliados com o bolsonarismo. Marinho, Tarcísio e Caiado continuam representando setores distintos da oposição a Lula. Contudo, ao reconhecerem a legitimidade do resultado eleitoral, esses nomes também se posicionam para o próximo ciclo político, no qual a direita terá que reorganizar suas forças para voltar a disputar o poder pelas vias democráticas.

Flávio Bolsonaro deve ficar restrito ao grupo mais fiel de sua base aloprada, que tende a minguar nos próximos anos. Sem Lula e sem um Bolsonaro, o próximo pleito eleitoral tende a ser propositivo. Pelo menos é o que se espera.

Por Henrique Brinco/Foto: Divulgação