Crônica: De volta para o Chevette

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— Construí uma máquina do tempo. Quer viajar comigo para o futuro?

— Quê? Como? Que jeito?

— Você já deve ter assistido ao filme ‘De Volta Para o Futuro’. Pois bem, construí um carro igual ao DeLorean, que nos levará até o ano 2055.

— Você construiu uma máquina do tempo com um DeLorean?

— Não! Já que não tinha aquele carro, fiz uma máquina do tempo com um Chevette 73, que comprei num ferro velho. A gente só tem que fazer o Chevettinho chegar a cem quilômetros por hora e então o capacitor de fluxo que inventei com um liquidificador usado vai fazer todo o resto, nos levando para o futuro!

— Isso é ridículo!

— Vai querer ir comigo ou não?

O amigo achou aquilo tudo uma loucura, mas decidiu dar trela ao louco amigo para ver até onde aquela sandice chegaria.

No dia da viagem, os dois estavam dentro do Chevette numa rua comprida e sem saída, ou melhor, o final da rua era um muro enorme.

— Você tem certeza que vai dar certo? Se não frear, vamos bater no muro!

— Pode ficar tranquilo, antes de chegarmos ao muro, o carro já pegou cem quilômetros e a gente estará no futuro num piscar de olhos.

O carro arranca e era tarde demais para voltarem atrás. O Chevette aos poucos aumentava a velocidade e cada vez mais, o muro crescia na frente.

— Pelo amor de Deus! Pare o carro ou vamos bater!

— Não vamos bater. Repita comigo: Chevette canivete põe no fogo não derrete pra fazer caminhonete lá na rua trinta e sete!

— O quê? Pra quê falar isso? O que tem a ver?

— Apenas repita! Faz parte da viagem!

O carro estava a quase cem por hora. Fazia um barulho de peças se soltando, o muro logo ali e os dois amigos entoando:

— Chevette canivete põe no fogo não derrete pra fazer caminhonete lá na rua trinta e sete…

O muro chegou. O carro bateu. E os dois ficaram em coma por vinte e nove anos.

Acordaram em 2055, graças aos avanços da medicina. Ao abrirem os olhos, olharam pela janela e viram carros voadores, viajantes da colônia em Marte, teletransporte etc.

Uma enfermeira entra no quarto e eles confirmam que estavam em 2055.

— Viva! Conseguimos! Viajamos no tempo. Estamos no futuro!

Chegou o médico com a conta do hospital pelos vinte e nove anos de internação.

— Dois trilhões de dólares estelares…

Agora, os dois amigos querem construir outra máquina do tempo para voltarem a 2026, para não pagarem a conta. Mas está praticamente impossível arrumar outro Chevette 73 em 2055, o jeito vai ser tentar com um Pálio 2015 mesmo.

Por Rodrigo Alves de Carvalho