Rogério Correia: “O bolsonarismo virou uma seita neofascista”

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O deputado federal Rogério Correia (PT-MG) afirmou que o bolsonarismo aprofundou seu caráter autoritário e passou a atuar como uma espécie de “seita neofascista”, subordinada, segundo ele, aos interesses dos Estados Unidos. O parlamentar também demonstrou preocupação com a atuação da Justiça Eleitoral, criticou o tratamento dado a casos envolvendo Flávio Bolsonaro e avaliou o cenário eleitoral em Minas Gerais.

As declarações foram dadas em entrevista ao programa Boa Noite 247, onde Correia abordou a disputa eleitoral mineira, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), investigações relacionadas ao Banco Master, a atuação de setores da imprensa e os movimentos da direita e da extrema direita para as eleições.

O bolsonarismo serve a isso. Virou uma seita neofascista. É autoritária e não tem nada agora de nacionalismo”, declarou o deputado. Para Correia, o grupo político liderado por Jair Bolsonaro teria passado a defender uma relação de dependência em relação aos Estados Unidos.

Ela virou agora uma dependência completa ao que manda os Estados Unidos e o imperialismo americano”, acrescentou.

Correia acusa elites de minimizar ameaças à democracia

Um dos principais focos da entrevista foi a avaliação do deputado sobre o comportamento de setores econômicos e da chamada grande imprensa diante das posições políticas do bolsonarismo.

Correia acusou parcelas das elites brasileiras de minimizar declarações e movimentos que, em sua avaliação, representam ameaças às instituições democráticas.

As elites brasileiras fingem que não estão vendo”, disse.

O deputado citou como exemplo as críticas de integrantes do bolsonarismo às urnas eletrônicas, às instituições eleitorais e ao Supremo Tribunal Federal (STF). Também mencionou articulações políticas com setores ligados ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Segundo Correia, integrantes do campo bolsonarista estariam antecipando publicamente uma agenda de confronto com o Supremo, principalmente por meio da tentativa de formar uma bancada suficientemente numerosa no Senado para abrir processos de impeachment contra ministros da Corte.

Eles estão dizendo: ‘Nós vamos dar um golpe se a gente ganhar as eleições, seja do Senado, seja presidente da República’”, afirmou o parlamentar, apresentando sua interpretação sobre as declarações feitas por representantes da extrema direita.

Correia também fez críticas à imprensa. Para ele, parte dos grandes meios de comunicação não estaria dimensionando adequadamente aquilo que considera ameaças à democracia e à soberania brasileira.

É uma irresponsabilidade total, inclusive de setores da grande imprensa. A gente fica abismado de ver, sabendo-se o risco que corre”, declarou.

Deputado demonstra preocupação com atuação do TSE

Correia também afirmou estar preocupado com a condução de processos eleitorais pelo Tribunal Superior Eleitoral, mencionando especificamente os ministros André Mendonça e Nunes Marques.

Questionado sobre decisões relacionadas ao uso de conteúdos produzidos por inteligência artificial durante a campanha eleitoral, o deputado disse acreditar que eventuais decisões individuais dos ministros poderão ser revertidas pelo plenário da Corte.

Existe preocupação, sim. Eu acho que tem duas formas de enfrentar. Uma é dentro do próprio TSE”, explicou.

Ele observou que decisões anteriores atribuídas a Nunes Marques não prevaleceram diante dos demais integrantes do tribunal, circunstância que, em sua avaliação, demonstra que o ministro não dispõe necessariamente de uma maioria consolidada.

Nós vamos ficar atentos para fazer com que esses recursos sejam votados rapidamente no pleno do TSE, quando for preciso”, disse.

Correia acrescentou que, em determinadas situações, decisões da Justiça Eleitoral poderão ser questionadas no Supremo Tribunal Federal.

O que nós não podemos é permitir que haja uma deslealdade ou uma benevolência com atos colocados pelas candidaturas ou pela candidatura principalmente de Flávio Bolsonaro”, afirmou.

Apesar de considerar positiva a possibilidade de revisão de decisões pelo colegiado, o deputado destacou que a presidência do tribunal detém um poder relevante: o controle da pauta.

Segundo ele, em uma campanha eleitoral curta, o tempo necessário para levar um processo a julgamento pode ter influência política significativa.

É sempre fator de instabilidade você ficar dependendo de quando ele coloca isso para ser de fato decidido pelo TSE e pelo Supremo Tribunal Federal”, avaliou.

Banco Master entra nas críticas do deputado

Outro assunto abordado durante a entrevista foi o Banco Master. Correia fez uma série de acusações sobre supostas relações financeiras envolvendo pessoas próximas à família Bolsonaro e o empresário Daniel Vorcaro.

O parlamentar mencionou a movimentação de R$ 61 milhões ligada, segundo seu relato, a um fundo e a pessoas vinculadas a Eduardo e Flávio Bolsonaro. As alegações feitas por Correia na entrevista devem ser entendidas como declarações do deputado e não como conclusões judiciais apresentadas no programa.

Para o petista, as investigações deveriam avançar mais rapidamente.

É impressionante como até agora não andou praticamente nada em relação à investigação”, afirmou.

Correia também disse considerar estranho que informações que, segundo ele, já estariam nas mãos da Polícia Federal ainda não tenham produzido novos desdobramentos públicos.

A Polícia Federal sabe muito mais. É estranho que até agora isso não tenha vindo à tona como deveria”, declarou.

O deputado associou essas críticas à sua experiência em uma CPMI e afirmou que investigações parlamentares anteriores já haviam identificado conexões entre integrantes do bolsonarismo e personagens ligados ao banco.

Na avaliação de Correia, haveria uma diferença de velocidade entre apurações que atingem pessoas associadas à família Bolsonaro e investigações que envolvem personagens próximos ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

“Dois pesos e duas medidas”

A discussão sobre o Judiciário atravessou boa parte da entrevista.

Os apresentadores questionaram Correia sobre a possibilidade de ministros adotarem critérios distintos de acordo com os personagens políticos envolvidos nos processos. O parlamentar concordou que esse é um ponto de preocupação e voltou a defender que decisões controversas sejam submetidas rapidamente aos colegiados.

Ao mesmo tempo, Correia avaliou que as derrotas de decisões individuais no próprio TSE funcionam como uma espécie de contrapeso institucional.

De certa forma, nos dá uma válvula de escape, porque a gente pode recorrer no próprio TSE”, disse.

Ele ressaltou, porém, que a existência desse mecanismo não elimina o problema criado pela possibilidade de atrasos na apreciação dos recursos.

Mesmo não tendo maioria, a gente tem que lembrar que ele é o senhor da pauta. É ele quem decide o que será ou não será”, observou um dos participantes da entrevista, em avaliação compartilhada pelo deputado.

Patrus Ananias anima militância em Minas, diz Correia

No campo eleitoral, Rogério Correia demonstrou entusiasmo com a candidatura de Patrus Ananias pelo PT em Minas Gerais.

Segundo ele, a definição ocorreu depois de o senador Rodrigo Pacheco não se colocar à disposição para disputar o governo estadual.

A saída então que nós encontramos foi dentro do próprio PT, mas de uma pessoa muito especial, que é Patrus Ananias, que é muito amado pela militância do PT”, disse.

Correia destacou a trajetória de Patrus como prefeito de Belo Horizonte e ministro nos governos petistas.

Na gestão de Lula, Patrus comandou o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome e esteve relacionado à implementação do Bolsa Família. Posteriormente, foi ministro do Desenvolvimento Agrário no governo Dilma Rousseff.

Para Correia, esse histórico ajuda a explicar a mobilização que a candidatura estaria provocando entre os petistas mineiros.

O Patrus deu um ânimo para a militância muito grande. Em outras palavras, agora nós estamos com a expectativa de concorrer para ir para o segundo turno e vencer as eleições”, declarou.

O deputado sustentou ainda que uma eventual vitória petista permitiria maior integração entre os programas federais e o governo de Minas.

Ele também citou a candidatura de Marília Campos ao Senado e disse esperar que a mobilização eleitoral contribua para ampliar as bancadas federal e estadual do partido.

Minas como “síntese do Brasil”

Questionado sobre o peso de Minas Gerais na eleição presidencial, Correia afirmou que a importância do estado vai além do fato de ser um dos maiores colégios eleitorais do país.

Não é que quem ganha em Minas ganha no Brasil. O problema é que Minas Gerais é uma espécie de síntese do Brasil”, disse.

Segundo ele, pesquisas realizadas no estado frequentemente apresentam tendências semelhantes aos levantamentos nacionais.

Você pega uma pesquisa em Minas e pega a pesquisa nacional, uma bate com a outra”, afirmou.

Historicamente, Minas ocupa posição estratégica nas campanhas presidenciais por reunir regiões com características econômicas, sociais e culturais muito distintas. Por isso, o desempenho dos candidatos no estado costuma receber atenção especial dos comandos nacionais das campanhas.

Correia vê direita dividida no estado

O deputado também avaliou que seus adversários enfrentam dificuldades para construir uma composição eleitoral em Minas.

Na interpretação de Correia, os grupos ligados ao governador Romeu Zema e ao bolsonarismo não conseguiram chegar a um acordo, enquanto outras lideranças disputam espaço próprio.

A direita está batendo cabeça. A turma do Zema não conseguiu fazer o acordo com a turma do Bolsonaro. Então eles estão se degladiando aqui também”, afirmou.

Ele mencionou nomes envolvidos nas articulações eleitorais mineiras e argumentou que há projetos pessoais concorrentes dentro desse campo político.

A avaliação do parlamentar é que essa fragmentação pode beneficiar a candidatura apoiada pelo PT, principalmente caso o campo progressista consiga chegar à campanha unificado.

Disputa nacional passa por Minas

Correia encerrou sua participação relacionando a eleição estadual à corrida presidencial.

Para ele, uma candidatura competitiva ao governo mineiro pode ajudar a campanha de Lula, ao mesmo tempo em que a candidatura presidencial pode impulsionar os candidatos petistas no estado.

A estratégia apresentada pelo deputado aposta, portanto, em uma campanha integrada: fortalecimento de Patrus Ananias na disputa estadual, mobilização em torno da candidatura ao Senado, ampliação das bancadas legislativas e uso da força eleitoral de Lula para consolidar o PT no segundo maior colégio eleitoral do Brasil.

Ao mesmo tempo, Correia indicou que a preocupação de seu partido não se restringe à disputa convencional por votos. Para o deputado, será necessário acompanhar atentamente decisões da Justiça Eleitoral, o uso de inteligência artificial e eventuais campanhas de desinformação.

Essa combinação entre disputa institucional, combate à desinformação e mobilização eleitoral aparece como um dos principais eixos da avaliação feita pelo parlamentar.

E, ao tratar da dimensão ideológica dessa disputa, Correia deixou a declaração mais contundente da entrevista:

O bolsonarismo virou uma seita neofascista. É autoritária e não tem nada de nacionalismo.”

247 – fOTO: Kayo Magalhães / Câmara dos Deputados.