
Não sei se Dostoiévski ou Tolstói, provavelmente Tolstói, em um conto ou capítulo de livro, apresenta um narrador que se depara com o corpo de um soldado, meio visível na neve, ainda com o fuzil na mão, morto, gelado.
É jovem o soldado morto e o narrador se queda a imaginar a vida interrompida dele. Quantos amores, onde nasceu e como foi cuidado e criado pela mãe, o que estava pensando quando a morte o interrompeu.
Foi a primeira associação que fiz ao me sentar em uma lanchonete que fica em frente a uma loja que conserta violões. Consertar, recuperar, fazer com que volte a embalar sonhos, desfilar alegria ou entorpecer tristezas e adeus.
Violões, por menos tocados, nos remetem a saudade, à amores, desejos, noites insones e ruas mal calçadas e pouco iluminadas. Violões acompanham, ou acompanhavam, rodas alegres de quase bêbados desafinados e se tornam prodígio, de notas e som, nos dedos e mãos de experts.
Imagino o consertador de violões, consertando ao mesmo tempo sonhos que embalaram, até a fadiga, o velho que a vida desensinou a amar ou o jovem que anseia pela mínima atenção do par que ronda suas noites; enquanto dedilhavam cordas, de repente frouxas ou ríspidas.
Imagino a ira do ou da amante esquecida, no rompante, atingindo (como se fosse o coração) a cabeça, torcendo as tarraxas, arrancando a pestana, torcendo o braço do violão, com quem o amado prefere compartilhar noites e rua.
Imagino o esforçado aluno, aprendiz de amor, buscando caminho para o coração de quem escolheu, dedilhando, dedilhando e mal, duas notas que se reconhecem, até que o violão, cansado, decide que o dó rascante não é reconhecível e nem o lá se comporta com razão. E lá vem o violão, professor falido, para as mãos do nosso consertador de sonhos.
Fico de frente a um que mostra sinais de uso e o vejo nas mãos do operário dos palcos. Não aquele sobre quem brilha todas as luzes, mas músico, de fundo; com o turno do final de semana interrompido pela vaidosa vontade do violão que já não responde a contento.
Vejo o Luthier (Denominação do profissional que conserta instrumentos de corda. Aprendi ontem, na procissão à Senhora das Grotas, ao som de seu hino, que é divina quando acompanhada por um violão); rindo, ao levantar um violão da bancada, como se ouvisse a história que está por trás de sua incapacidade de responder com música ao movimento hábil dos dedos do violonista.
E volto a Tolstói: o soldado de sua história não pode ser consertado. Uma bala interrompeu seus sonhos, de forma definitiva. A ira, o uso, o descuido, uma bala, porque não; um tombo, calou o violão. Deixou mudo, calado e talvez, por tempos sob calor e frio, mas, eis um mágico o faz vivo de novo e disposto a devolver a voz a quem o silêncio da vida tentou emudecer.
Por Manoel Leão
Créditos e reflexões finais:
01) A loja, que em alguns dias, fica aberta até tarde, fica na rua Santa Clara e não tem número. Quase na esquina da Travessa Santa Clara. O Luthier é Willi, com Instagram @willi_luthier. Me pareceu que ele tem em si as histórias de todos os violões que restaura.
02) O Luthier, é uma palavra francesa, significa fabricante de alaúdes. Quem me ensinou a palavra foi Zé Brocoió, Wilson Duarte, ontem (08/09/2026), em uma conversa no início da procissão à Nossa Senhora das Grotas;
03) Falei , en passant, do hino à Nossa Senhora das Grotas, mas me refiro também à música de Mauriçola. Linda, linda. Por falar em Mauriçola, há anos e anos ele me deu um poster: ele sentado, um violão à frente. Nunca toquei violão e esse poster, ficou com a ex. Não sei mais dele.
04) Um desses leitores antigos me informa que o texto sobre o soldado é parte de um conto de Tolstói, incluído no livro Contos de Sebastopol, que li há pelo menos 60 anos atrás. Não fui fiel ao relato do encontro e nem sei se é assim mesmo.
05) Ao fim; fiz umas fotos. Sou péssimo como fotografo. Fica o registro.
Texto e Foto de Manoel Leão

