FESTAS PÚBLICAS, CULTURA, POLÍTICA, ECONOMIA E O DEBATE QUE DIVIDE O BRASIL

Artigos

Nos últimos anos, os cachês pagos a artistas em eventos públicos se transformaram em um dos temas mais debatidos do país. Em cidades pequenas, médias e grandes, principalmente durante festejos juninos, aniversários municipais, carnavais e festas tradicionais, a população passou a questionar. Até que ponto é justificável gastar milhões de reais com apresentações musicais enquanto faltam investimentos básicos em áreas como saúde, educação, saneamento, infraestrutura e assistência social?

O debate ganhou força especialmente nas redes sociais, onde contratos públicos passaram a circular com facilidade. Valores milionários pagos por apresentações de uma hora e meia começaram a chamar atenção da população, órgãos de controle, Ministério Público, Tribunais de Contas e imprensa.

Em muitos municípios brasileiros — inclusive na Bahia — não é raro encontrar cidades com dificuldades históricas em setores essenciais anunciando grandes atrações nacionais por cifras extremamente elevadas. Isso provocou indignação em parte da população e abriu uma discussão complexa sobre prioridades administrativas, orçamento público, valorização cultural e retorno econômico desses eventos.

Mas afinal: por que artistas cobram tão caro? O que realmente está incluído nesses cachês? Por que prefeitos continuam contratando grandes nomes? O investimento traz retorno? Existe irregularidade? O que diz a lei? E por que tantos artistas locais reclamam da falta de valorização?

O QUE ESTÁ POR TRÁS DE UM CACHÊ MILIONÁRIO?

Muitas pessoas enxergam apenas o valor final divulgado no Diário Oficial ou nos portais da transparência. Porém, empresários do setor artístico argumentam que o cachê não representa apenas “o cantor subir no palco”.

Segundo profissionais da área de entretenimento, o valor envolve uma estrutura gigantesca:

* equipe técnica;

* músicos;

* produtores;

* seguranças;

* transporte;

* alimentação;

* hospedagem;

* iluminação;

* painéis de LED;

* cenografia;

* impostos;

* logística aérea e terrestre;

* custos administrativos;

* marketing;

* manutenção de equipamentos;

* estrutura de camarim;

* geradores;

* sonorização;

* seguro de equipamentos;

* vínculo empregatício da equipe;

* além da própria valorização comercial do artista no mercado.

Artistas que estão “estourados” nacionalmente possuem agenda disputada. Em períodos como São João, Carnaval e réveillon, muitos realizam apresentações em sequência, chegando a fazer vários shows por dia. Isso naturalmente eleva os preços.

Há também a chamada “lei da oferta e procura”. Quanto maior a demanda por determinado artista, maior tende a ser seu cachê.

O PROBLEMA NÃO É APENAS O VALOR — É O CONTEXTO

O grande questionamento popular geralmente não está ligado somente ao cachê em si, mas à realidade da cidade que faz a contratação.

Em muitos municípios brasileiros existem problemas históricos:

* ruas sem pavimentação;

* falta de saneamento básico;

* deficiência no abastecimento de água;

* hospitais sem estrutura;

* escolas precisando de reforma;

* falta de médicos;

* filas na regulação da saúde;

* estradas vicinais deterioradas;

* desemprego;

* déficit habitacional;

* ausência de políticas públicas permanentes.

Quando uma prefeitura anuncia milhões de reais em atrações musicais diante dessa realidade, parte da população entende que há uma inversão de prioridades.

A crítica se intensifica principalmente quando:

* o evento dura poucos dias;

* os serviços básicos continuam precários;

* artistas locais recebem valores muito baixos;

* há pouca transparência nos contratos;

* ou quando os mesmos problemas se repetem ano após ano.

POR QUE PREFEITOS CONTINUAM INVESTINDO EM GRANDES SHOWS?

Mesmo diante das críticas, gestores públicos defendem que os grandes eventos movimentam a economia local.

Entre os argumentos mais utilizados estão:

1. Geração de renda

Grandes festas costumam aquecer:

* hotéis;

* pousadas;

* bares;

* restaurantes;

* ambulantes;

* vendedores informais;

* motoristas;

* salões;

* supermercados;

* postos de combustíveis;

* comércio em geral.

Em cidades turísticas ou durante festas tradicionais, milhares de visitantes podem circular em poucos dias.

2. Fortalecimento do turismo

Prefeituras alegam que eventos ajudam a:

* divulgar a cidade;

* fortalecer a identidade cultural;

* atrair turistas;

* impulsionar o comércio;

* gerar visibilidade regional e nacional.

3. Pressão política e cultural

Existe também um fator político.

Grandes atrações geram:

* repercussão nas redes sociais;

* presença de público;

* fortalecimento da imagem da gestão;

* engajamento popular;

* impacto midiático.

Na prática, muitos prefeitos sabem que festas populares possuem forte apelo eleitoral e social.

MAS CULTURA É APENAS GRANDES SHOWS?

Esse é um dos principais pontos levantados por artistas independentes e agentes culturais.

Muitos defendem que a cultura vai muito além de contratar artistas famosos.

Cultura também envolve:

* teatro;

* dança;

* artesanato;

* literatura;

* quadrilhas juninas;

* fanfarras;

* bandas filarmônicas;

* capoeira;

* cinema;

* artistas locais;

* manifestações populares;

* tradições regionais;

* oficinas culturais;

* formação artística;

* preservação histórica;

* música autoral;

* espaços culturais permanentes.

A crítica recorrente é que grande parte dos recursos culturais acaba concentrada em poucos shows de grande porte, enquanto artistas locais permanecem sem estrutura, apoio técnico ou incentivo financeiro.

ARTISTAS LOCAIS: A PARTE MAIS FRÁGIL DA CADEIA

Em muitos municípios, artistas da própria cidade afirmam enfrentar:

* falta de espaço;

* cachês baixos;

* ausência de incentivo;

* dificuldade para gravar;

* falta de equipamentos;

* ausência de políticas permanentes;

* pouco reconhecimento.

Muitos músicos locais precisam manter outras profissões porque não conseguem sobreviver apenas da arte.

Diversos municípios brasileiros começaram a criar leis conhecidas como “Prata da Casa”, obrigando a participação mínima de artistas locais em eventos financiados com recursos públicos.

Na Bahia, várias cidades já adotaram legislações semelhantes buscando garantir espaço para músicos da própria terra.

Mesmo assim, artistas locais reclamam que:

* recebem horários menos valorizados;

* têm estrutura inferior;

* recebem cachês desproporcionais;

* e muitas vezes são tratados apenas como complemento da programação.

O QUE DIZ A LEI?

A contratação de artistas pela administração pública possui previsão legal.

Ela pode ocorrer:

* por licitação;

* ou por inexigibilidade de licitação, quando há inviabilidade de competição, principalmente em casos de artistas consagrados.

A Lei nº 14.133/2021 (Nova Lei de Licitações) permite a contratação direta de artistas consagrados pela crítica ou opinião pública.

Mas isso não significa ausência de fiscalização.

Os órgãos de controle analisam:

* compatibilidade do valor;

* justificativa do cachê;

* razoabilidade;

* interesse público;

* transparência;

* legalidade;

* impacto orçamentário;

* origem dos recursos.

O QUE JÁ ACONTECEU NO BRASIL?

Nos últimos anos:

* Ministérios Públicos abriram investigações;

* Tribunais de Contas questionaram contratos;

* eventos foram suspensos;

* gestores sofreram ações judiciais;

* Houve recomendações para redução de gastos.

Em alguns casos, o debate ficou ainda mais intenso quando cidades em situação de emergência financeira anunciaram cachês milionários.

O PAPEL DA TRANSPARÊNCIA

Especialistas defendem que a população precisa acompanhar:

* portais da transparência;

* diários oficiais;

* contratos públicos;

* fontes dos recursos;

* impacto financeiro dos eventos.

Também cresce a cobrança por:

* audiências públicas;

* participação popular no orçamento;

* maior equilíbrio entre cultura e serviços essenciais.

Muitos cidadãos questionam por que a população raramente participa efetivamente da definição das prioridades orçamentárias.

O IMPACTO ECONÔMICO É REAL?

Economistas afirmam que grandes eventos realmente podem movimentar a economia local.

Entretanto, há um debate importante:

* o retorno financeiro beneficia toda a população?

* ou apenas setores específicos?

* o lucro compensa o investimento?

* Existe planejamento pós-evento?

* O município mede resultados reais?

Em muitos casos, faltam estudos técnicos detalhados sobre:

* arrecadação gerada;

* empregos temporários;

* impacto econômico efetivo;

* retorno tributário.

ENTRE O ENTRETENIMENTO E AS NECESSIDADES BÁSICAS

O Brasil vive um cenário contraditório.

Ao mesmo tempo em que festas populares possuem enorme importância cultural, social e econômica, milhões de brasileiros convivem diariamente com:

* precariedade nos serviços públicos;

* filas na saúde;

* desemprego;

* carência estrutural.

Por isso, o debate sobre cachês públicos deixou de ser apenas uma discussão sobre música. Hoje ele envolve:

* prioridades administrativas;

* responsabilidade fiscal;

* transparência;

* política;

* cultura;

* economia;

* justiça social.

O QUE DEFENDEM OS GESTORES?

Muitos prefeitos argumentam que:

* os recursos da cultura possuem destinação específica;

* festas movimentam a economia;

* cancelar eventos não resolveria todos os problemas estruturais;

* cultura também é investimento social;

* eventos geram empregos temporários.

Há ainda quem defenda que festas populares fazem parte da identidade cultural dos municípios e ajudam inclusive na saúde emocional da população.

O QUE A POPULAÇÃO COBRA?

A população, por outro lado, quer equilíbrio.

Muitos cidadãos não criticam necessariamente a realização das festas, mas defendem:

* mais responsabilidade;

* proporcionalidade;

* transparência;

* valorização dos artistas locais;

* investimentos permanentes em cultura;

* equilíbrio entre festa e serviços essenciais.

O DESAFIO DOS MUNICÍPIOS

O grande desafio atual talvez seja encontrar um equilíbrio entre:

* promoção cultural;

* movimentação econômica;

* responsabilidade fiscal;

* valorização local;

* e atendimento das necessidades básicas da população.

A discussão sobre cachês milionários dificilmente vai desaparecer. Pelo contrário: com o avanço da transparência digital e das redes sociais, a tendência é que a população acompanhe cada vez mais de perto como o dinheiro público está sendo utilizado.

ANÁLISE JURÍDICA

Ao analisar o tema de forma jurídica e imparcial, o advogado João Valença, da VLV Advogados (https://vlvadvogados.com/), destaca que a discussão precisa ser feita com equilíbrio e responsabilidade:

> “A contratação de artistas por parte do poder público não é ilegal. A legislação brasileira permite esse tipo de contratação, inclusive por inexigibilidade de licitação em determinadas situações. O problema surge quando há ausência de transparência, falta de planejamento, desproporcionalidade nos gastos ou possível afronta aos princípios da administração pública.”

OPINIÃO

É necessário compreender que cultura também é um direito constitucional, mas isso não elimina a obrigação do gestor público de agir com responsabilidade fiscal e razoabilidade.

O gestor precisa demonstrar interesse público, compatibilidade de preços, legalidade do procedimento e equilíbrio entre os investimentos culturais e as demais necessidades essenciais da população. O debate não deve ser tratado apenas no campo emocional ou político, mas técnico, jurídico e administrativo.

A sociedade tem papel fundamental no acompanhamento dos gastos públicos.

Quanto maior a transparência e a participação popular nas decisões orçamentárias, menor tende a ser o nível de desconfiança da população em relação aos investimentos públicos em eventos culturais.

JOÃO DE JESUS – Jornalista pela Uesb, campus Vitória da Conquista /Foto: Divulgação nas redes sociais, autor indefinido