
No dia nacional da saúde, cientistas cassados pelo AI-5, na ditadura, foram homenageados e considerados pesquisadores eméritos da Fiocruz
Nesta quarta-feira, 5 de Agosto, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) concedeu o título de pesquisador emérito a nove cientistas cassados pelo AI-5 nos anos 70. Por terem seus direitos políticos cassados durante a ditadura militar, instituição homenageia seus serviços à Pátria.
Inclusive, a data escolhida foi o dia 5 por que esse é o Dia Nacional da Saúde, também aniversário do médico Oswaldo Cruz, patrono da Fiocruz. Assim, a homenagem foi feita nas escadarias do Castelo Mourisco, na sede da instituição, no Rio de Janeiro.
Vale destacar que os pesquisadores já tinham sido incorporados há 40 anos, na gestão Sérgio Arouca. Mas a decisão de os homenagear surge também como forma de combater as atuais campanhas de desinformação e o negacionismo.
Os cientistas cassados pelo AI-5 e a cerimônia
Conforme a Agência Brasil, os homenageados são:
Augusto Cid de Mello Perissé,
Augusto Cid de Mello Perissé, foi um fármaco especialista no combate do veneno de diplópodes brasileiros, mas que foi afastado de ser professor pesquisador em qualquer instituição pública pela ditadura brasileira.
Inclusive, sua dedicação ao Brasil era tanta que foi convidado para assumir o cargo de diretor de Pesquisa e Professor do Instituto Nacional da Saúde e da Pesquisa Médica (INSERM), em Paris, mas recusou o cargo porque exigia a naturalização francesa e ele não aceitava abdicar da cidadania brasileira.
Tito Arcoverde de Albuquerque Cavalcanti
Tito Arcoverde de Albuquerque Cavalcanti, foi professor e chefe da Divisão de Fisiologia e Farmacodinâmica, uma liderança nacional da pesquisa. Durante sua ocupação como diretor do Instituto Oswaldo Cruz, entre 1960 e 1961, focou na nutrição e a saúde ocupacional no ambiente brasileiro.
Nesse sentido, buscou compreender o impacto social que a fome endêmica causava em regiões como a Amazônia, Maranhão e Piauí. Fato é que foi forçadamente afastado do cargo por 16 anos. Quando voltou, empenhou-se para reconstruir o Departamento de Fisiologia e Farmacodinâmica da instituição
Haity Moussatché
Naturalizado brasileiro, Haity Moussatché, foi responsável por trazer ao Brasil o rigor da fisiologia experimental e da farmacodinâmica moderna. Com mais de 200 artigos científicos ao longo de 6 décadas, Haity teve de lidar com o exílio para a Venezuela e com o interrompimento de seus estudos sobre a reação anafilática e a reatividade de músculos lisos e estriados.
Somente em 1985, que Moussatché retornou ao Brasil e reorganizou o Departamento de Fisiologia e Farmacodinâmica da Fiocruz. Pois depois do expurgo o espaço havia sido desmantelado e jogado à traças.
Fernando Braga Ubatuba
Médico e químico, Fernando Braga Ubatuba criou um núcleo de pesquisas em ciências fisiológicas que se tornou referência nacional. De modo que além de formar uma das principais lideranças científicas das próximas décadas começou a incomodar as altas camadas da ditadura.
Por isso, em 1968, foi preso na UFRRJ e mantido incomunicável por 14 dias no paiol de pólvora do Exército, em Paracambi, sendo posteriormente forçado a ministrar suas aulas sob escolta armada. Posteriormente, a influência da qualidade de seu trabalho era tanta que instituições da Venezuela e da Inglaterra o convidaram para integrar projetos.
Nesse sentido, Ubatuba participou diretamente do estudo sobre os peróxidos e hidroperóxidos do ácido araquidônico, o mecanismo de ação da aspirina e a descoberta e caracterização da prostaciclina (PGI2), uma nova prostaglandina produzida no endotélio vascular, ao lado de John Vane, Nobel de Medicina de 1982.
Moacyr Vaz de Andrade
Doutor em química, Moacyr Vaz de Andrade atuou como pesquisador e professor na Seção de Micologia, especializando-se em química e terapêutica de fungos. Integrou a equipe de Masao Goto e Antônio Eugênio de Arêa-Leão. Mas o projeto foi interrompido e destruído. Os cientistas cassados pelo AI-5 se dissiparam e a pesquisa nunca foi terminada.
De acordo com a Agência Brasil, Andrade viveu 2 anos em desemprego compulsório até passar a liderar pesquisas no setor privado. Somente em 1986 passou a trabalhar novamente na instituição Fiocruz, onde trabalhou até 1997, quando se afastou por problemas de saúde.
Hugo de Souza Lopes
Conhecido por ser a maior autoridade mundial nos estudos da família Sarcophagidae, Hugo de Souza Lopes teve uma carreira marcada pela paixão pela ciência e a pesquisa. Por isso, durante mais de uma década trabalhou e pesquisou gratuitamente.
Entretanto, também destacou-se na malacologia (estudo dos moluscos) e na botânica. Até ser impedido pelo AI-5 de entrar nos laboratórios que ele mesmo havia erguido. Porém, continuou seu trabalho formando as novas gerações de pesquisadores na Universidade Santa Úrsula e o Museu Nacional.
Masao Goto
O conhecido chefe da Seção de Micologia da Universidade do Brasil, atual UFRJ, Masao Goto, foi um especialista de renome internacional no estudo das micoses sistêmicas e superficiais. De modo a liderar, junto de Antônio Eugênio de Arêa-Leão, o estudo de metabólitos fúngicos com potencial ação analgésica para pacientes com câncer.
Fato é que a pesquisa que já estava em fase de teste clínico foi interrompida pelas cassações feitas pelo AI-5. Masao Goto nunca conseguiu retomar suas pesquisas no antigo cargo que ocupava da instituição que ajudou a construir.
Sebastião José de Oliveira
Pesquisador negro, Sebastião José de Oliveira inicpou as pesquisas que criaram o o núcleo de estudos sobre os Chironomidae no IOC (Instituto Oswaldo Cruz). Com mais de 120 trabalhos publicados, foi responsável pela descoberta de 4 gêneros novos de insetos dípteros.
Inclusive, tamanha sua importância, o gênero Oliveriella foi criado. Posteriormente, outras 10 espécies foram batizadas com o epíteto oliveira, em sua homenagem. Sua pesquisa e trabalho de catalogação e avanço científico também foi interrompido após o afastamento forçado pelo AI-5. Somente em 86 retornou até a Instituição e assumiu a docência e a curadoria da Coleção Entomológica.
Domingos Arthur Machado Filho
Embora Domingos Arthur Machado Filho fosse um estudioso multidisciplinar, se tornou autoridade internacional no estudo dos acantocéfalos (vermes parasitas de probóscide espinhosa). Mas foi afastado completamente de qualquer instituição de pesquisa e desenvolvimento científico financiada pelo Estado. Barrando seus projetos de pesquisa. Exerceu a docência até falecer em 1990.
Além desses, a honraria também foi dada aos herdeiros de Herman Lent, que também foi cassado pelo AI-5, mas já tinha recebido o título de pesquisador emérito anteriormente.
A homenagem nos tempos de hoje
Conforme o presidente da Fiocruz, Mario Moreira, o ato pode não ser uma honraria em vida, mas ainda sim é extremamente simbólico e carrega uma mensagem oportuna. Disse Moreira à Agência Brasil:
Nós reintegrarmos os cassados em um ato político muito forte, simbólico, sinalizando, naquela época acreditávamos nisso, que estávamos afastando os perigos de governos autocráticos. […] Contra o negacionismo e as ‘fake news’ que ainda nos rondam até o dia de hoje, reafirmamos a ciência como base da democracia, para que o país possa desenvolver-se de forma mais justa e mais equânime”.
Por Augusto César/Fotografia dos cientistas cassados pelo AI-5 durante a Ditadura Militar brasileira, reunidos em evento nos anos 80 – Foto: Divulgação/Acervo Fiocruz

