A vida em rascunho

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Talvez a vida nunca chegue à versão final. Enquanto esperamos o momento certo, o tempo passa e aquilo que poderia ter sido vivido fica guardado como um rascunho que nunca ganhou coragem para existir.

Eu estava procurando um documento qualquer no computador quando abri, sem querer, uma pasta antiga chamada ideias. lá dentro, um cemitério organizado em ordem alfabética: conto do ônibus AGORA VAI, começo bom não perder, ideia boa madrugada, este último contendo uma única linha que diz “ele volta para buscar o relógio”, e eu juro que não faço a menor ideia de quem é ele, que relógio é esse, nem por que em 2017 isso me pareceu importante o suficiente para levantar da cama. fiquei um bom tempo ali, rolando a lista, como quem visita parentes que não vê há anos e não reconhece mais.

São dezenas de rascunhos. textos com três parágrafos ótimos e nenhum quarto. contos que param exatamente na hora em que eu precisaria decidir alguma coisa. e as versões, meu deus, as versões: crônica v2 revisada FINAL definitiva convivendo na mesma pasta com crônica v2 revisada FINAL definitiva MESMO. cada arquivo desses foi, no dia em que nasceu, uma promessa. eu fechava o documento com a sensação boa de quem começou algo, e o rascunho ficava lá, esperando um retorno que a agenda sempre empurrou para frente.

O incômodo veio quando eu percebi que não faço isso só com texto. eu vivo em versão rascunho. a conversa importante que eu vou ter quando a poeira baixar. o projeto que eu vou tirar do papel quando sobrar um dinheiro. o hábito que começa segunda-feira, essa segunda-feira mítica que funciona como lixeira de intenções. a versão final de mim mesmo está sempre agendada para um futuro em que as condições vão colaborar: mais tempo, mais calma, menos boleto. enquanto isso, eu me apresento ao mundo como esboço, pedindo desculpas antecipadas, avisando que ainda não sou a edição revisada.

Só que as condições não colaboram nunca. essa é a notícia que ninguém me deu aos vinte anos e que eu entrego a você de graça: a poeira não baixa, o tempo não sobra, a segunda-feira chega cheia dos mesmos problemas da sexta. esperar a versão final é um jeito elegante de não publicar nunca. e rascunho engavetado não toca ninguém. aquele conto do relógio pode até ser ruim, mas na gaveta ele nem essa chance tem. o texto imperfeito publicado conversa, erra, encontra um leitor. o perfeito inédito só acumula poeira digital e culpa.

Então fica aqui o meu comunicado oficial: eu decidi publicar a vida como ela está. com erro de digitação, com quarto parágrafo faltando, com versões conflitantes de mim mesmo na mesma pasta. esta coluna que você acabou de ler, aliás, é exatamente isso: um rascunho que criou coragem. se você encontrar erros, finja elegância. o autor está em revisão permanente, e desconfia, cada vez com menos medo, de que todo mundo está.

@enricopierroofc