
A escalada do conflito entre ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) despertou na campanha de Flávio Bolsonaro (PL) o receio de que decisões de Alexandre de Moraes e Flávio Dino produzam efeitos políticos e jurídicos sobre o senador, candidato à Presidência da República. A avaliação dos aliados ganhou força depois que André Mendonça determinou, nesta terça-feira (8), o afastamento de Andrei Rodrigues da direção-geral da Polícia Federal.
Segundo a coluna da jornalista Malu Gaspar, em O Globo, integrantes da campanha temem possíveis medidas relacionadas às investigações sobre o uso de emendas parlamentares, relatadas por Dino, e a inquéritos conduzidos por Moraes sobre organizações criminosas e agentes públicos no Rio de Janeiro. Até o momento, porém, não há informação sobre decisão dos ministros diretamente contra Flávio Bolsonaro ou sua candidatura.
Nos cenários discutidos internamente, a campanha considera que eventuais desdobramentos podem partir de duas frentes. A primeira envolve a investigação conhecida como “Dark Horse”, ligada ao financiamento de um filme sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro. A segunda está associada à Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental das Favelas, a ADPF das Favelas, e às apurações sobre lavagem de dinheiro, milícias e infiltração do crime organizado no poder público fluminense.
O Rio de Janeiro concentra parte relevante da apreensão política. Além de ser o terceiro maior colégio eleitoral do país, o estado representa o principal reduto eleitoral da família Bolsonaro. Uma operação contra pessoas próximas ao senador, avaliam membros da campanha, poderia gerar desgaste justamente onde o grupo construiu sua trajetória política.
Moraes já autorizou uma operação para investigar suspeitas de fraude e sonegação fiscal no setor de combustíveis no estado. Também determinou a abertura de uma apuração sobre a lavagem de recursos por facções e milícias e a possível presença de organizações criminosas em estruturas do poder público.
Na semana passada, o ministro retirou o sigilo de documentos que expuseram informações sobre telefonemas e negociações atribuídos ao ex-governador Cláudio Castro, aliado político de Flávio. A divulgação é interpretada na campanha como um indicativo dos potenciais efeitos das investigações sobre o grupo político do senador.
Um integrante da equipe eleitoral afirmou que espera uma resposta do Supremo à ofensiva de Mendonça.
“O STF vai nos revidar, já normalizamos isso”
O mesmo aliado acusou Moraes de utilizar instrumentos de investigação para responder a adversários, sem apresentar provas públicas dessa afirmação.
Outro interlocutor ouvido pela coluna indicou que o embate entre Mendonça e Dino deve se intensificar.
“Mendonça e Dino vão dobrar a aposta. Vem coisa por aí”
Filme sobre Jair Bolsonaro amplia apreensão
A investigação sobre “Dark Horse” aparece no centro das preocupações da campanha. A obra, produzida pela Go Up Entertainment, apresenta a trajetória de Jair Bolsonaro e tem estreia prevista somente depois das eleições.
A empresa pertence à jornalista Karina Gama, que, segundo O Globo, demonstrou preocupação a interlocutores com o agravamento da crise institucional. Os aliados de Flávio consideram possíveis medidas como busca e apreensão na produtora e quebra de sigilos. Também mencionam, sem indicação de ordem judicial expedida, o risco de prisão da jornalista.
O caso ganhou maior repercussão depois que o Intercept Brasil publicou mensagens nas quais Flávio teria cobrado recursos do proprietário do Banco Master, Daniel Vorcaro. O dinheiro seria destinado, segundo a reportagem mencionada pela coluna, ao financiamento do filme.
A Polícia Federal pediu à Go Up, no mês passado, explicações sobre os aspectos financeiros, contratuais e operacionais da produção. A produtora respondeu na sexta-feira (4) e encaminhou milhares de documentos distribuídos em 17 arquivos digitais.
Uma perícia particular encomendada pela própria empresa estimou o custo total de “Dark Horse” em US$ 13,39 milhões, equivalentes a R$ 75,18 milhões pela cotação utilizada no laudo do perito Anísio Costa Castelo Branco.
O documento indica que, das cinco etapas de produção, somente as filmagens foram executadas no Brasil. As demais teriam ocorrido nos Estados Unidos, destino de 72% dos gastos declarados. Os outros 28% teriam sido desembolsados em território brasileiro.
Embora informe ter examinado extratos bancários e despesas detalhadas, o laudo não incluiu esses documentos como anexos, de acordo com a coluna. A ausência desses comprovantes e o elevado custo declarado provocaram questionamentos no setor audiovisual.
Flávio acusa articulação contra sua candidatura
Na quinta-feira anterior ao afastamento do diretor-geral da PF, Flávio Bolsonaro afirmou que Moraes, Dino e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), estariam preparando uma ação contra ele. O senador condicionou a acusação à confirmação das informações.
A reportagem de O Globo informou ainda que Moraes esteve reunido durante três horas com Alcolumbre na residência do senador, no Lago Sul, em Brasília, antes de avançar em sua reação contra Mendonça.
Relatórios de inteligência usados na decisão de Moraes apontaram Alcolumbre como um dos “prováveis alvos” de possível direcionamento de investigação por Mendonça. Os documentos, segundo a própria coluna, são apócrifos, não apresentam provas e registram que “qualquer uso externo” de seu conteúdo seria prematuro.
Outro episódio acompanhado pela campanha envolveu Cláudio Castro. Moraes autorizou a divulgação de um relatório da PF segundo o qual o ex-governador recebeu uma degustação de caviar em um hotel de luxo de São Paulo, em abril de 2026.
A despesa teria sido paga por um advogado que trabalhou como assessor do ex-deputado Domingos Brazão e que é investigado por uma suposta ligação com o empresário Ricardo Magro, da Refit. A informação passou a integrar o conjunto de apurações que inquietam os aliados de Flávio Bolsonaro, diante do temor de que a crise interna do STF alcance o núcleo político e eleitoral do senador.
247/Rosinei Coutinho/STF

