
Subtítulo: Talvez os quatro cachorros não saibam explicar o que é viver bem, mas parecem entender uma coisa que eu ainda estou aprendendo: o passado não precisa entrar pela porta junto com a gente.
Todo santo dia, na mesma hora, os quatro se organizam na porta para esperar a comida. Não adianta eu estar atrasado, com a cabeça em outro lugar, discutindo comigo mesmo algum problema que parece do tamanho do mundo. Eles estão ali, sentados, olhando para a porta com uma expectativa tão inteira que chega a doer de tão simples. Nenhum deles carrega a discussão de ontem. Nenhum deles antecipa a de amanhã. Existe só a fome de agora, a porta de agora, a alegria de agora.
Eu invejo essa economia emocional deles, sinceramente. Eu levo a mesma mágoa por semanas, remoendo ela em ângulos diferentes, cada um mais desgastante que o outro. Eles brigam, rosnam feio um para o outro por causa de um brinquedo, e cinco minutos depois estão deitados encostados, como se o rosnado tivesse acontecido numa vida anterior. Não é que eles esqueçam por burrice. É que eles não carregam o passado como peso, só como aprendizado rápido, e seguem.
Tem uma cena que se repete muito aqui em casa: eu chego cansado, de mau humor, arrastando um dia ruim pela casa inteira, e algum deles vem esfregar a cabeça na minha perna, sem nenhum motivo lógico, sem retribuição esperada, só porque sim. Não é estratégia, não é cálculo. É presença pura, o tipo de coisa que eu, com toda a minha capacidade de escrever sobre sentimento, ainda erro na hora de oferecer de graça.
Confesso que já tentei imitar. Já tentei chegar em casa e decidir, na marra, que aquele dia ruim ia ficar do lado de fora do portão, do jeito que eles parecem fazer com tanta naturalidade. Funciona umas vezes. Na maioria, eu carrego o dia inteiro para dentro de casa, converso com ele até tarde, e só de madrugada, olhando para algum deles roncando tranquilo aos meus pés, é que eu lembro que existe outro jeito de viver um dia difícil.
Não sei se um dia eu vou aprender de vez o que eles sabem sem esforço nenhum. Mas toda vez que um deles esquece uma briga em cinco minutos, ou espera a comida sem nenhuma ansiedade sobre o futuro, eu anoto mentalmente que ali, naquele focinho descansando no meu colo, existe uma aula que eu ainda não terminei de fazer.
@enricopierroofc

